“Senão” ou “se não”?

O uso da palavra “senão” e da forma paralela em duas palavras “se não” causa muitos embaraços e dúvidas até em bons escritores. Compreender seu funcionamento é também defrontar-se com os sentidos do texto

Por Roberto Sarmento Lima* | Adaptação web Tayla Carolina

Quem é vivo, diz o ditado popular, sempre aparece; e quem já morreu também, desde que seja uma celebridade, daquelas que ninguém consegue esquecer, por mais que tente. Se o leitor me conhece mais ou menos, deve estar pensando que eu estou me referindo a Machado de Assis. Sim, estou. Ponto para o leitor!

Veio-me à mente, como quem não quer nada, o capítulo LXXI de Memórias Póstumas de Brás Cubas, intitulado “O senão do livro”, no qual o narrador, enfastiado em sua longa e irreversível temporada no além, diz que começa a se arrepender do seu livro de memórias, apontando em seguida o seu maior defeito: “és tu, leitor”.

Ao contrário de mim, que procuro fazer-me de amigo daquele que me lê, esse defunto autor o escorraça de vez em quando, sem dó nem piedade. Eis que, então, percorrendo com a vista as páginas do outro grande romance de Machado, Dom Casmurro, deparo com um senão — que não é, desta vez, o leitor, mas é, justamente, o emprego equivocado da palavra “senão”, devendo, antes, ser “se não”, em duas palavras, como vamos ver daqui para a frente.

Constrange-me apontar um deslize nesse que é o mestre de todos nós; mas nem os mestres escapam de uma varredura implacável por parte dos chamados especialistas de estudos gramaticais. Eu, que já fui traído por editores, fui também por mim mesmo.

 

→ Mim X Eu (ou para mim X para eu): desfazendo um mito

 

Alguns revisores de editoras a quem entreguei meus originais já plantaram, em meu nome, erros de escrita julgando
corrigir-me; mas eu próprio já os cometi, creio que inadvertidamente, por pressa, decerto. Quando fui ver, o texto já estava impresso; e nada mais podia ser feito em meu favor, a não ser rezar o mea-culpa.

Depois de encontrar o tema do presente artigo — o uso por vezes difícil do “senão”, em uma palavra só, e do par homófono “se não” —, tendo extraído exemplos, como disse há pouco, da obra Dom Casmurro, resolvi, para não cometer injustiça com o Bruxo do Cosme Velho, cotejar três edições:

– uma da década de 1970, da editora carioca Tecnoprint S. A., da série Edições de Ouro, apresentando-se naquele formato de livros de bolso (a data não aparece na edição e estou-me baseando na data em que adquiri o volume, em 1976, lá vai longe esse dia);

– outra, da Publifolha, do Grupo Folha, de São Paulo, em coedição com a Ediouro, do Rio de Janeiro, saída em 1997; e, por fim, a edição da Editora Nova Aguilar, do Rio, a chamada Obra Completa de Machado de Assis, em papel-bíblia, competentemente organizada, então, por Afrânio Coutinho, também vinda a público em 1997.

Quis acercar-me, pelo menos, de três edições, com a finalidade de verificar para que lado tende o fiel da balança. Meu critério foi conferir a incidência do fato linguístico, para, ao comparar, daí tirar uma lição sobre o emprego de tais termos.

Versões da mesma frase

Vejamos, pois, as ocorrências da mesma frase que pretendo analisar em diferentes edições do romance Dom Casmurro. E, para facilitar a coleta dos dados, identifico, aqui, essas edições por siglas, seguindo a ordem da menção delas feita no parágrafo anterior: desse modo, para saber que estou me referindo à edição da Tecnoprint, uso a sigla TEC; da Publifolha, PUB; e da Nova Aguilar, NA. Tudo certo, então?

Comecemos! Dirijamo-nos ao capítulo CXIV, “Em que se Explica o Explicado”. A frase que interessa nesse capítulo e que aparece tanto na edição da TEC quanto na da PUB é a seguinte: “Em si, a matéria é chocha, e não vale a pena de um capítulo, quanto mais dois; mas há matérias tais que trazem ensinamentos interessantes, se não agradáveis.” (O grifo é meu)

Já na edição da NA temos uma ligeira modificação, que também grifo: “Em si, a matéria é chocha, e não vale a pena de um capítulo, quanto mais dois; mas há matérias tais que trazem ensinamentos interessantes, senão agradáveis.” (O grifo é meu)

Assim, em duas edições de casas editoriais diferentes, aparecem, lado a lado, na sequência, a conjunção subordinativa condicional “se” e o advérbio de negação “não”, enquanto na terceira, a da NA, aparece a forma “senão”.

Não posso aqui assegurar se Machado de Assis escreveu “se não” ou “senão”, porque as edições compulsadas (e outras, muito provavelmente) parecem descender, supostamente ao menos, do texto original do escritor. Caberia
aí uma investigação, sem dúvida, o que não é meu propósito neste artigo, tendo de contentar-me com o que vem sendo publicado por aí afora.

 

→ Onomatopeia

 

Coitado de quem escreve neste país! Quanta desatenção! Pode ser a gota d’água! Agora, vamos ao fato linguístico. Em que circunstâncias discursivas se diz, numa palavra só, “senão”? E, de outro modo, em que momento se escreve em duas palavras distintas, um “se” seguido de um “não”, separados ambos os termos?

Estudemos o caso. No exemplo extraído do capítulo do romance, ficamos sabendo pelo narrador Bentinho que há matérias várias, que ele caracterizou duplamente: “interessantes” e “agradáveis”. O leitor haverá de concordar que
entre um adjetivo e outro não há muita diferença de sentido.

Uma coisa interessante é sempre agradável — aos olhos, aos ouvidos, ao paladar… Mas entre tais qualidades se instala, quase imperceptivelmente, uma branda gradação. Dizer que algo é interessante pode ser pouco; quem fala sente a necessidade de ampliar o tom e acrescentar que é também agradável.

Ou seja, o segundo adjetivo intensifica o sentido do primeiro, colocado antes; reforça-lhe o sentido; busca uma maior explicitação do que tem a dizer. A matéria de que fala Bentinho atrai tanto pelo que prende a atenção dele (digamos, um sentido mais intelectual) quanto pelo que isso é prazeroso, aprazível (digamos, um despertar de impressões sensoriais).

Se os termos são praticamente sinônimos, não o são na verdade porque um tem algo que o outro não tem, e, por isso, é preciso insistir neles, conjuntamente. E, se assim é mesmo, suspeita-se que mais um dizer se intercala nessa sequência, para que melhor se perceba o sentido incrustado na frase: “há matérias tais que trazem ensinamentos interessantes, se é que não trazem também ensinamentos agradáveis”.

O que está em itálico é o que mentalmente se poderia acrescentar; elimine-se o que está grifado e voltará a sequência “se não agradáveis”. Com a inserção dessa parte na sequência, vê-se claramente que o “se” e o “não” estão separados; com o cancelamento dos termos mentalmente incluídos, por que o “se” e o “não” não continuariam separados? Não haveria lógica que o explicasse.

Sentiu bem isso, leitor? Sentiu claramente que há, aí, uma conjunção condicional (o “se” que inicia a sequência) e um advérbio negativo (o “não” que se lhe cola, sem de fato se colar, pondo-se apenas adiante, separado e distinto)?

Sendo duas classes de palavras diferentes — uma conjunção e um advérbio —, essas palavras são escritas soltas porque são decididamente inconfundíveis, guardando cada uma delas a sua significação e função.

Disso decorre que a frase extraída da versão da NA é que está mal redigida, pois nela aparece grafada uma palavra só, “senão”. Resta saber se essa frase, manca e defeituosa, é ou não a frase original de Machado de Assis.

 

*Roberto Sarmento Lima é professor doutor da Universidade Federal de Alagoas. Autor do livro O Narrador ou o Pai Fracassado: Revisão Crítica e Modernidade em Vidas Secas, publicado em 2015 pela OmniScriptum/Novas Edições Acadêmicas, em Saarbrücken, Alemanha.

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa – Ed. 68