Saiba quais as diferenças entre os 4 “porquês”

Quando escrever "porque", "por que", "por quê" e "porquê"?

Texto: Roberto Sarmento Lima | Fotos: 123rf | Adaptação Web: Rodrigo Sodré

As pessoas, mesmo as mais atiladas e atentas às normas de escrita do português formal, titubeiam bastante na hora de separar ou juntar os variados combinados “porquês”. Que bom é falar, não? Quando falamos, ninguém vê sair da boca de quem fala o famigerado “porquê”, com acento, sem acento, junto, desunido — ninguém percebe se as duas sílabas do vocábulo vêm juntas, agarradinhas, se separadas, numa demonstração de desapego de um ao corpo do outro, como acontece a certos casais. Há até gente (e não é pouca gente) que se esquiva de mandar mensagem escrita pelo WhatsApp e vive gravando áudios um atrás do outro, por temer um deslize que o receptor venha a considerar fora do comum ou um tanto quanto desabonador para quem escreve, virando isso quase um defeito moral.

Apesar de toda a displicência que há atualmente no trato da escrita padrão, quem escreve mal ou não tem segurança em seus conhecimentos de escrita fica um tanto embaraçado, intimidado ou receoso nesse momento. E, se o receptor da mensagem for um professor de português, aí é que se fica mesmo atrapalhado ou envergonhado. Arma-se um verdadeiro climão! O que irá pensar o professor? Então, o negócio é falar mesmo, falar e falar, ignorar a escrita, já que a maioria dos descuidados também não quer fazer o dever de casa e ir consultar uma gramática. Quanto trabalho, não? Primeiro, torna-se cansativo procurar a gramática na estante (se é que ainda há em casa alguma gramática, ou, pior, alguma estante, pelo menos aquela que expõe livros a mancheias e manda o povo pensar). Depois, ato contínuo, abrir o livro, buscar a informação que deseja…

A PALAVRA QUE GOSTA DE SUMIR
Quero me ocupar neste artigo dos porquês, porque sinto que eles constituem um calo de causar dó na vida do brasileiro. Algumas pessoas chegaram a decorar uma regra absurda que só pode mesmo ter saído de uma mente frágil e perturbada: se se tratar de uma pergunta, escreve-se separadamente esse porquê; mas, se for uma resposta, ou uma afirmativa, fica tudo junto! Triste engano! Veremos por quê! (Ops! Acabei de separar um!).

Tomemos uma frase qualquer. Eis uma que vi na revista Veja em sua edição de 21 de junho de 2017, na página 68. Examinemo-la!

“Em uma transação de 1 bilhão de euros, a Natura compra a rede inglesa The Body Shop. Mas há uma razão que explica por que suas ações caíram 13% desde o anúncio da aquisição” Na sequência “há uma razão que explica por que suas ações caíram 13% desde o anúncio da aquisição” aparece esse “por que” em duas palavras. Quem lê até aí (trata-se da linha-fina da matéria) e não pretendeu ler a reportagem intitulada “Nasce um Gigante” não sabe, até então, por que as ações da Natura caíram 13% desde que ela divulgou que iria adquirir a The Body Shop. Sabe? Não sabe. E não sabe porque ainda não foi dita ou explicitada a razão da queda dessas ações no mercado financeiro; a linha-fina da reportagem apenas anunciou o que se vai ler, levando o leitor a ler, estimulando-o para saber tudo que se precisa saber, de acordo com a área de interesses de cada um.

Bom, se não se conhecem ainda as razões do fato, isso está sugerido na redação da frase que estou examinando. Que há uma razão que explica a queda das ações há sim! O leitor ainda a ignora. As palavras “por” e “que”, devidamente separadas, têm de ser compreendidas em si mesmas; e é por isso que, vendo que palavras temos à mão, podemos empregá-las. Esse “por” nada mais é do que uma preposição essencial; e não há quem discorde disso; é a mesma preposição que aparece em locuções como “por trás”, “por direitos humanos”, “por alguns anos”, iniciando-as, ligando tais expressões ora a verbos (“Colocou-se por trás da cena”), ora a nomes (“Cresceu a luta por direitos humanos”). Por sua vez, a palavra “que”, sem acento circunflexo, que acompanha o substantivo “razão” (ou poderia ser seu sinônimo “motivo”), é um determinante… pertence à classe dos pronomes. O leitor deve se perguntar agora onde é que está o substantivo “razão” (ou “motivo”), já frase. Não aparece, mas existe. Vamos então recompor a frase — torná-la mais clara ainda — e ver que a presença do substantivo faz toda a diferença:

“Mas há uma razão que explica por que razão suas ações caíram 13% desde o anúncio da aquisição”

Viu só, leitor? Cabe ou não cabe aí o substantivo “razão”? É uma pergunta indireta, pois não? Se fosse direta, despontaria, claro, ao fim dela, um vistoso sinal de interrogação: “Por que (razão) suas ações caíram 13% desde o anúncio da aquisição?”. De um jeito ou de outro, a palavra “razão”, elíptica na frase, pode bem ser evocada e, assim, ajudar a compor de modo mais completo o cenário gramatical. Pode-se, sim, sem dúvida, inseri-la na frase. Normalmente, esse substantivo desaparece, porque é considerada óbvia demais, senão abusiva, a sua presença (note, leitor, que no exemplo que estou dando, tirado de Veja, a palavra “razão” seria pronunciada duas vezes, uma bem perto da outra, o que poderia causar má impressão fônica); e, pelo princípio da economia linguística, é melhor que não fique mesmo clara, mas seja tão somente subentendida.

E qual a conclusão dessa história toda? A conclusão é que, na frase (seja ela uma pergunta indireta, seja uma pergunta direta), podendo estar ou não presente o substantivo “razão”, temos, nesse por que, dois termos diversos, pertencentes a duas classes de palavras distintas: uma preposição (“por”) e um pronome indefinido (“que”), porquanto quem pergunta a razão disso ou daquilo não sabe ainda o motivo, que é desconhecido. Se soubesse, não perguntaria.

CAUSA, NUMA PALAVRA SÓ
Mas uma pergunta pode conter um “porque”, junto, sem acento circunflexo, que não se desfaz de jeito nenhum em duas palavras. Imaginemos, então, uma frase interrogativa banal como esta:

“Você voltou porque estava com saudade?”

Ora, uma pergunta mais com cara de pergunta direta como essa não há. E, no entanto, a desmentir aquela liçãozinha absurda que nossos lentes inventaram, certamente por falta de reflexão, por comodismo talvez, não se sustenta a fórmula segundo a qual, quando se trata de uma pergunta, o “porque” obrigatoriamente se divide em dois, dando uma sequência como “por que”. Tente, leitor, introduzir na frase acima a palavra “razão”, ou “motivo”. Será que se pode dizer, em bom português, “Você voltou porque motivo estava com saudade?”, a ponto de forçar a separação das duas sílabas desse “porque” que aí se encontra? Cabe tal substantivo? Não se sente algo forçado no ar? Pelo visto, isso não é mesmo possível, não é? Não cabe, efetivamente. Logo, nessa nova frase, não pode haver duas palavras (um “por” e um “que”), porque não existem duas classes de palavras diferentes. Nada de preposição “por” e de pronome indefinido “que”, como foi observado no primeiro exemplo estudado neste artigo. O que há agora é apenas uma conjunção subordinativa causal. Uma classe de palavras apenas, não duas, como antes. E, se é apenas uma classe de palavras que aparece na oração, o “porque” deve ser grafado desse modo, tudo junto, pois é justamente desse modo, de fato e necessariamente, que escrevemos tal conjunção, em um vocábulo escrito só, sem intervalos. Uma ressalva: optei, aqui, por escrever esse “porque” sem acento circunflexo, mesmo que na frase que elaborei ele se tenha transformado em substantivo (o que obrigaria a pôr o acento gráfico), para que o leitor não confunda substantivo com conjunção causal. Só por isso.

A conjunção causal “porque” é uma palavra que se escreve em uma sequência compacta, sem separações à vista; ela serve para introduzir a causa do efeito que se enuncia na oração principal: se se diz (ou se pergunta) “Você voltou” e se se quer conhecer a causa desse ato, esta só é dita na oração seguinte: “Você voltou / porque estava com saudade” ou “Você voltou / porque estava com saudade?”. Assim, tanto numa frase declarativa quanto numa frase interrogativa, tanto faz, a conjunção causal “porque” se mantém inalterada, ou seja, continua firme e forte um vocábulo escrito só. Não é a simples presença de um sinal de interrogação que vai forçar a escrever “por que”, claro que não, simplesmente porque a entonação da frase não faz a conjunção causal deixar de ser o que é. O processo que faz alterar a composição do termo é a sintaxe por que passa a expressão linguística, não o contorno melódico da frase.

Visto isso, confirma-se a inutilidade da regra que segue o critério da pergunta-resposta para saber se se escreve “porque” ou “por que”, em situações em que isso existe. O critério é, pois, outro, para não haver enganos: é a sintaxe (a construção da frase) que, por sua vez, implica conhecer bem as classes de palavras envolvidas na questão (uma preposição, um pronome indefinido, uma conjunção subordinativa causal, conforme vimos até este momento). Semanticamente, tudo se parece, pois os exemplos trazidos aqui se mexem no campo semântico da causa e da explicação; a distinção está, de fato, em outro lugar, no caso, repetimos, na sintaxe.

PELA NECESSIDADE DE SE COMUNICAR BEM
Por fim, devo lembrar que, se vem em final de frase ou de grupo de força (não necessariamente em fim de período, mas de uma sequência semanticamente forte e bem definida), o “por que”, em duas palavras, passa a ser “por quê”. É que o pronome indefinido se tonifica, quando fecha a oração ou o grupo de força. Os exemplos falam por si próprios: “O mundo se agita sem saber por quê”
Ou, numa frase maior:

“Tudo parece incompreensível — o mundo se agita sem saber por quê — e tudo continua muito igual, como sempre foi”

O pronome indefinido, aquele mesmo que antecede o substantivo “razão”, elíptico como sempre, aliás, assume uma força tônica capaz de deixar no ar a necessidade de pronunciar o substantivo que não compareceu:

“O mundo se agita sem saber por que razão”

Num giro, essa mesma frase poderia ser expressa deste outro jeito:

“O mundo se agita sem saber exatamente a razão por que se agita”

Interessante notar que, se a palavra “razão” vem antes do par “por que”, continuamos a ter a mesmíssima preposição, “por”, mas esse “que” passa a ser um pronome relativo. Esse “que” vale por “a qual”, que substitui o antecedente “razão” (“O mundo se agita sem saber exatamente a razão pela qual se agita”). Mas, se o substantivo vem depois, o “que” é, como já visto, pronome indefinido, já que é desconhecida ou mal pressentida a razão. E eis que vem à mente de todos nós o título de um livro de José de Alencar, Como e Porque Sou Romancista. Notou, leitor, como foi grafado o vocábulo fonético em questão? Não deveria o escritor cearense ter dito isso em duas palavras, e não em uma? Afinal, ele quer explicar, nesse livro, o modo como chegou a ser romancista e a razão por que — ou pela qual — se tornou romancista. Sinal de que, naquele longínquo século XIX, os fatos gramaticais ainda não se achavam completamente descritos. As editoras que publicam tal livro de Alencar ainda hoje preferem manter a forma original, em sinal de respeito à época em que foi escrita a obra e à língua que então se exercitava e se compreendia. Essa licença cria a possibilidade de entender a história da língua portuguesa, sua configuração no tempo, fazendo-os ser respeitados acima de tudo.

Com tantos porquês (agora, como acabo de escrever, um substantivo, e, como tal, sempre numa palavra só e com acento circunflexo), é natural que o usuário da língua portuguesa padrão não raro se engane. Não custa, porém, passar uma hora pelo problema, estudando-o, perscrutando-o, interrogando-o. O que se defende é a cristalinidade da expressão de acordo com o seu emprego e as intenções do usuário. A sintaxe comanda a compreensão dessas particularidades de escrita, já que o critério semântico, nesse caso particular, em nada ajuda. Acertar na escrita não chega a ser um troféu a ser conquistado, mas é indício de que o usuário entendeu o processo sintático envolvido, quando precisa lançar mão da expressão para se fazer entender no circuito comunicativo.

Eis aí, portanto, outra coisa que devemos todos aprender: escrever e falar com correção, sem esnobismos, não serve — não deve servir — para intimidar ninguém ou excitar a curiosidade e a admiração do outro para simplesmente colher elogios (“Como ele escreve bem!”). No Brasil, o que deveria ser uma norma é uma exceção, e um requinte. Tudo em nome de uma necessária e eficiente comunicação linguística!