Regras do Português: a razão da gramática

Artigo sobre as regras gramaticais

Texto: José Augusto Carvalho | Fotos: 123rf | Adaptação Web: Rodrigo Sodré

Por que razão o verbo tem de concordar com o sujeito, e o adjetivo com o substantivo? Quem inventou a regra que diz que o verbo assistir, com o sentido de ver, só pode ser usado com a preposição a? Essas foram as perguntas que um aluno me fez, acreditando que as regras gramaticais da coiné tenham sido impostas pelos gramáticos. No dialeto caipira, dizia-me esse aluno, as regras são mais simples, sem redundâncias. E deu um exemplo de improviso que não é exatamente o que transcrevo, mas é de mesma estrutura: “Os home bom merece ser respeitado”, em que apenas o artigo leva a marca de plural.

Sedimentação das regras gramaticais

Na verdade, nossos primeiros gramáticos, como João de Barros e Fernão de Oliveira, se basearam, não em escritores, mas na observação de como falavam as pessoas cultas de sua época, embora a metodologia do seu trabalho se espelhasse na gramática latina. Por isso, durante muito tempo, a gramática era entendida como a “sistematização dos fatos da linguagem”. As regras gramaticais não se sedimentaram pelos textos literários, mas pela observação da fala de pessoas cultas e pelos textos legais, que, aliás, serviram no séc. XVI como cartilha na alfabetização e na aprendizagem da língua. Os gramáticos posteriores a João de Barros e a Fernão de Oliveira é que passaram a citar exemplos de escritores como abono das regras, à imitação das gramáticas latinas, acreditando que a gramática era a “arte de falar e de escrever bem”.

O latim só poderia ser ensinado a partir dos textos de escritores porque não havia outro jeito de saber o que quer que fosse a respeito de sua sintaxe, a não ser pela observação dos escritos dos grandes poetas e prosadores que utilizavam o latim imperial: Virgílio, Ovídio, Catulo, Júlio César, Cícero, entre outros. Esse método de escrever gramáticas e dicionários com abono de textos literários não vale para línguas atuais, porque ao escritor não compete escrever como todos os falantes escrevem. Além disso, há outros meios de saber como a sintaxe opera numa língua viva, sem o recurso à literatura de ficção, como os editoriais de jornal ou como os livros de História ou de Filosofia, em que a linguagem é denotativa, sem arroubos criativos. O ficcionista tem, necessariamente, de subverter a sintaxe de sua língua, recriá-la, trabalhá-la. Basta folhear um bom dicionário latino, como o de Lewis e Short, por exemplo, para ver, num mesmo verbete, exemplos vários de escritores em construções diferentes, mostrando que na Roma Imperial o ofício literário era também entendido como matéria de carpintaria.

Gerativistas

Os gerativistas (se ainda existem) exageram ao evitar o abono de textos literários porque costumam citar-se a si mesmos na exemplificação das regras que enunciam, o que os leva muitas vezes a equívocos na tentativa de forçar a intuição para comprovação do que afirmam. Um gerativista chegou a “ensinar”, em sua tese de doutoramento em inglês sobre o infinitivo em português (que só foi aprovada porque foi defendida diante de uma banca examinadora que não sabia falar o português), que o verbo falecer só se usa para pessoas e que “mim” ocorre como sujeito de infinitivos preposicionados. Na verdade, “mim” só ocorre como sujeito de infinitivo com a preposição “para” e apenas com ela: “Ele disse para mim sair.”. Essa foi a única tese de doutorado que eu conheço sobre sintaxe da língua portuguesa em que não se recorreu a nenhuma obra em português, nem mesmo a um dicionário! O que evitaria dizer bobagem sobre o emprego do verbo falecer. Um outro gerativista, só para dar mais um exemplo, recusava o infinitivo preposicionado em predicados adjetivais como “é fácil de fazer, é difícil de entender”, que ele recusava como fato da língua e só aceitava a construção sem a preposição: “é fácil fazer, é difícil entender”, porque o emprego da preposição contrariava a doutrina que ele defendia.

A propósito de gerativistas, um parêntese: uma estudiosa tentou estabelecer um paralelo entre uma estrutura afirmativa e/ ou negativa e uma estrutura interrogativa, confrontando diferenças semânticas e sintáticas. Seu orientador pediu-lhe que desistisse da empreitada porque a gramática transformacional diz muito sobre a sintaxe, mas não diz nada sobre a entoação. Orientador e orientanda perderam uma excelente oportunidade de preencher uma falha na doutrina que seguiam.

Dos dicionários de língua portuguesa, acho que apenas o Houaiss não pratica esse método equivocado de citar exemplos de escritores em seus verbetes. Os nomes que cita são apenas de autores de obras técnicas.

Dialeto caipira

Quanto à pretensa falta de redundância no dialeto caipira, basta ver a letra do samba “Saudosa Maloca”, de Adoniran Barbosa, ou textos de autores que escreveram em dialeto caipira, como Cornélio Pires ou Catulo da Paixão Cearense, para ver que a sua sintaxe não é tão simples assim como afirmam alguns linguistas baseados apenas na letra da canção folclórica “Cuitelinho”. Além disso, o dialeto é uma variedade linguística que se forma paralelamente a uma língua autônoma. Pode ostentar três das quatro variáveis com que William Stewart classificou as sociedades multilíngues: historicidade, vitalidade e padronização, mas falta-lhe a quarta variável: a autonomia.

Quanto à regência do verbo assistir, a norma culta difere da norma popular, entendendo-se como norma, aqui, tudo o que é habitual na fala de um indivíduo ou de uma comunidade linguística. A regência, na verdade, é instaurada pela concordância e pela colocação. Numa língua com regras de concordância menos numerosas que a nossa, como o inglês, por exemplo, a colocação é que passa a ser obrigatória.