Ciências e o ensino médio

A geração digital, ou geração de conteúdo próprio, como escreveu o professor e pesquisador Pedro Demo, não se encaixa no formato educacional mais comum, o sistema instrucionista. A aprendizagem como autoria é a 'velha novidade', sendo as atividades de pesquisa o caminho natural para se obter êxito no ensino básico, assim promovendo o protagonismo juvenil.

Texto: Anderson Alves Costa | Fotos: 123rf | Adaptação Web: Rodrigo Sodré

O presente texto apresenta uma reflexão acerca da busca do protagonismo juvenil na investigação e produção científica no Ensino Médio, com ênfase ao incentivo e desenvolvimento de atividades de pesquisa por parte dos estudantes no contexto escolar, formato ventilado como alternativa para superar o clássico sistema instrumentista. A ideia da pesquisa como princípio educativo, que está nos Parâmetros Curriculares Nacionais, é tendência atualmente, sendo, portanto, a principal ferramenta para promover o pensamento crítico a partir da curiosidade em meio ao rigor das normas técnicas da ABNT, referência de todo pesquisador e acadêmico. Seja componente curricular próprio ou nas áreas, a cardo de um profissional ou exercida por vários professores, a nova modalidade também visa preparar os jovens para a sua futura inserção no mundo do trabalho ou para a continuidade dos estudos no nível superior.

Ainda assim, a pesquisa não é entendida como parte fundamental no processo da aprendizagem por uma parcela de professores, que sem formação na área preferem abortá-la a se aprofundar nos estudos para buscar o conhecimento que lhes falta. Neste contexto, no papel de professor e estudioso acerca do tema, acredito que o maior desafio não está em ensinar os processos metodológicos da investigação científica, e sim tornar a pesquisa algo instigante e palpável para o estudante, o qual, geralmente, ingressa no ensino médio sem o básico sobre o que é produzir um texto, evidenciando esforço pela autoria, papel do uso da citação e da referenciação, as implicações para o autor ao plagiar parcial ou integralmente etc. Para Demo (2015, p. 16), o atual formato educacional vigente de repassar conteúdo é um atraso, pois atendemos hoje a geração de conteúdo próprio, que quer ser autora, isto é, ser protagonista.

Geração cibernética
O educador, atualmente, precisa reinventar-se e aprender a exercer o papel não de único detentor do conhecimento. Sabe-se que crianças e adolescentes desta geração cibernética detêm muita informação hoje em dia. Mas por estarem em processo de amadurecimento intelectual e não terem um filtro que os possibilite separar o conteúdo consistente do que é superficial, é o professor — também na função de mediador da informação e do conhecimento — que deve orientá-los, ser o responsável por situá-los em sua etapa de desenvolvimento enquanto sujeito em processo de formação do pensamento crítico. Bagno (2009, p.14) afirma que “se o professor abrir mão de seu papel fundamental de orientador da aprendizagem de seus alunos, estará se responsabilizando pelo que vier a acontecer com eles…”. Por não ser este jovem um pré-adulto, é dever do adulto-referência instrumentalizá-lo a fim de despertar nele habilidades cognitivas e sociointerativas; não devendo haver, por parte do orientador, ação de caráter indutivo ou manipuladora, pois é a liberdade um bem sagrado no processo ensino-aprendizagem que visa não só valorizar o empírico ensina e aprende quando ambos compreendem a dimensão e importância da produção social do conhecimento.

Com a experiência e o aprendizado adquiridos no processo de escrita do primeiro artigo, partem os pesquisadores para a produção individual, em dupla, trio ou quarteto do segundo artigo científico. Novamente, respeitando etapas, elabora-se o projeto de pesquisa rumo à prática. Ao longo do processo, em um caderno de campo registraram individualmente o dia a dia dos procedimentos científicos até a escrita final do artigo, que entregam até meados de novembro. Conforme relato dos estudantes, a construção do segundo artigo científico é mais tranquila, já que conceitos de pesquisa e as normas técnicas da ABNT e de linguagem são assimilados no primeiro momento.

Trabalhar pesquisa científica é extenuante, mas de ganhos concretos — pois acredito que o ensino da ciência é o caminho, ainda que desafiador. Por quê? Elaborar o cronograma, passar as tarefas e exigir resultados é insuficiente, método ultrapassado, que afasta ao invés de agregar. O diálogo, o acompanhamento na sala de aula e extraclasse, a disponibilidade para pesquisar junto, mente aberta para escutar e aprender, tudo isso se constitui como elemento-chave na relação do jovem com a ciência. Para tornar vital a relação, “ação, movimento, provocação, na tentativa de reciprocidade intelectual entre os elementos da ação educativa. Professor e aluno buscando coordenar seus pontos de vista, trocando ideias, reorganizando-as.” (HOFFMANN, 1991, p. 67) são ingredientes indispensáveis. O jovem que busca preparar-se à vida pessoal e profissional precisa ser escutado: seja o foco da pesquisa em algo mais concreto, como o vestibular e futuramente a profissão a seguir, seja o foco numa mera curiosidade pessoal.

Temas de destaque
Aquisição do título de eleitor aos 16 anos, benefícios da equoterapia para crianças com autismo, reutilização da água doméstica, violência doméstica, influência da mídia sobre o público infantil, valorização das potencialidades dos atletas paraolímpicos, presença de autistas na escola de ensino regular, efeitos metabólicos causados pelo corte de determinados itens nocivos à saúde durante uma semana, o risco precoce do uso da pílula anticoncepcional sem prescrição médica, influência do uso excessivo das redes sociais para adolescentes entre 15 e 17 anos, importância de Libras na escola, Alzheimer: aspectos físicos e psicológicos, depressão e prejuízos cognitivos nos jovens em idade escolar, brincadeiras de criança: prós e contras em tempos digitais, escola sem partido ou atraso intelectual — são alguns dos temas que se destacaram neste ano, abrangendo diversas áreas do conhecimento. Após produzir os artigos científicos, apresentá-los a uma banca de professores foi apenas a “cereja”, pois, durante todo o ano, muito se leu, se escreveu, se reescreveu.

Por mais que os recentes estudos acadêmicos apontem caminhos para entender esta geração digital, que experimenta o novo sob os signos dos avanços tecnológicos, a busca por resultados satisfatórios pelos docentes e comunidade escolar parece não ter fim. É compreensível que a instituição escolar ainda não esteja preparada para compreender este público que vive conectado a tudo que é instantâneo, impulsionado pela informática, pela multimídia e pela globalização. Por mais que instituição escolar e os profissionais da educação façam força para acompanhar os eventos tecnológicos e usufruí-los como os jovens de sua época, a distância entre ambos ainda é muito grande, já que é visível como a escola e o educador não são mais a fonte exclusiva de informação.

Por isso, se faz necessária uma nova postura pedagógica. Para cada início de ano letivo, de modo a evitar conflitos de datas e/ou contestações quanto ao plano de trabalho por discentes, pais, equipe pedagógica, o professor/orientador de pesquisa deve elaborar minuciosamente o planejamento curricular anual antes de especificar a proposta de trabalho para os estudantes — claro, tendo em curso que esse método é passível de adaptações. Ou seja, construa o cronograma elucidando principalmente datas e atividades e suas respectivas descrições de ordem organizacional a serem aplicadas no decorrer das aulas, tendo por base o parecer conclusivo do projeto aprovado e aplicado no ano anterior.

Reflexão acerca do pensar
De acordo com a realidade da instituição, e considerando sempre a maneira particular a que cada setor pedagógico se organiza para tal, professores os quais farão parte do corpo docente de orientadores de pesquisa devem registrar as ações e metas a partir dos planos de aula e de trabalho. Embora o exercício da reflexão acerca do pensar, compartilhar e executar não raro encontre obstáculos a ser implantado, todavia, demonstra maturidade no processo, pois o projeto pedagógico que se constrói coletivamente é menos suscetível a erros quando posto à prova. E é em razão desse convívio que a interdisciplinaridade ocorre, espontaneamente.

Difunde-se muito o tal protagonismo juvenil, expressão à qual se atribui vasto repertório que o conceitua à luz de nossa época: acesso instantâneo a toda forma de conhecimento e de informação, atrativos eletrônicos na área do entretenimento, atitude midiática por meio das redes sociais, para citar alguns. A escola, hoje, deve superar o sistema meramente conteudista para atender às necessidades e interesses deste jovem plugado à tecnologia. Por isso é importante estar revisitando anualmente nossas práticas. Quem trabalha com componentes que têm a investigação e produção científica no Ensino Médio deve estar ainda mais atento às transformações de ordem social, cultural, política, econômica, ambiental, tecnológica, uma vez que a produção do conhecimento está centrada no jovem pesquisador, sendo o professor o orientador, o mediador, aquele que instrumentaliza, direciona.

Não há interdisciplinaridade se entre professor-orientador e estudante-pesquisador não houver interação social, diálogo; somente desta forma os saberes podem ser compartilhados. Trabalhar com os processos de investigação científica corroboram para haver integração curricular quando o conhecimento produzido está relacionado às disciplinas — conteúdo/fragmentação do conhecimento — e ao mundo a sua volta, promovendo, assim, o protagonismo juvenil no processo de ensino-aprendizagem. Conhecer a realidade espaço-temporal do jovem estudante também é fator determinante, pois é o espaço escolar um ambiente onde a formação para ser integral deve valorizar o que cada sujeito tem de orgânico, com suas potencialidades e desafios sociocognitivos.