Precisamos falar sobre os alunos

Em reflexão sobre os filmes "A Onda" e "Precisamos falar sobre o Kevin", Jussara Saraíba discute comunicação e atenção ao comportamento dos alunos.

Por Jussara Saraíba / Adaptação Web Rachel de Brito

PRECISAMOS FALAR SOBRE KEVIN
Imagem retirada do filme “Precisamos falar sobre o Kevin”.

Dois filmes, nada novos, vêm me assombrando em minhas reflexões. Precisamos falar sobre o Kevin e A Onda. Ambos baseados em livros, o primeiro retratou
o best-seller homônimo de Lionel Shirver, de 2011, e o segundo, lançado em 2008, seguiu o livro também homônimo, de 1981, do escritor juvenil Todd Strasser, que, por sua vez, foi inspirado em um filme de Norman Lear – produzido para a televisão – igualmente intitulado A Onda. E tudo isso foi baseado em um acontecimento real, conhecido como Terceira Onda.

Mas por que esses filmes, já passados anos do seu lançamento, voltam à baila em discussões aqui e ali? Sobretudo por, aparentemente, termos oceanos de distância de onde os fatos acontecem: Kevin, em um subúrbio de Nova York, e o professor Ron Jones, de A Onda, na Califórnia de 1967. O que une esses dois acontecimentos e como eles nos afetam – ou retratam?

Em Precisamos falar sobre o Kevin, o protagonista da história é um menino de 16 anos, autor de uma chacina que liquidou sete colegas, uma professora e um servente no ginásio de um bom colégio do subúrbio de Nova York. Em A Onda, um professor de história resolve trabalhar um projeto com seus alunos, tentando fazê-los entender, na prática, o que era o Nazismo. Para tanto, incitou a sala para que escolhessem um líder, e ela o escolheu. A partir daí, passa a ditar ordens bem rígidas, que os meninos e meninas seguem sem questionar.

Enquanto um retrata a violência que permeia a sociedade, o segundo coloca em xeque a certeza de que a democracia, quando instalada, não sofre revezes. No meio de tudo isso, há o discurso, ou a ausência dele.

A mãe do psicopata juvenil, Eva, no filme interpretada brilhantemente por Tilda Swinton, é mostrada, em sua juventude, como uma garota livre, alegre e que vai se consumindo após a maternidade, talvez antevendo o que poderia acontecer com seu filho. Mas ela se cala, não discute o problema com o marido, apático, que não percebe (ou não quer perceber) as tendências de seu primogênito.

Em contrapartida, em A Onda, o protagonista do filme são os discursos do professor, que vão, aos poucos, ganhando força e envolvendo aquela comunidade estudantil. Mas há um ponto em comum na ausência ou no direcionamento da comunicação. Se em um caso há medo e estranheza diante do comportamento do filho, no outro há vaidade exacerbada, prepotência, que impede o professor de ver com clareza o que está acontecendo.

Por aqui já temos Kevin surgindo onde menos se espera. Também temos jovens que empunham conceitos fascitas e/ou nazistas, sem entenderem claramente o que isso significa, principalmente através das redes sociais.

Cabe a nós, educadores, ver além do que se apresenta e promover diálogos entre alunos, escola e família, o que talvez seja a melhor solução. Há os que perguntarão como intervir em um processo tão pessoal, mas há os que vão questionar justamente o contrário: como não intervir em face de um problema
de tamanha proporção?

Por vezes, nos tornamos extremamente técnicos. Já ouvi diversas vezes de docentes que eles estão ali para ensinar o que aprenderam na faculdade: verbos, fatoração, fórmulas químicas, e não “para educar o filho dos outros”. Mas há aqueles mestres lutando, muitas vezes, contra moinhos de vento, tentando alcançar aquela criança, aquele jovem, e o que é fantástico, conseguindo.

Nas reuniões pedagógicas, não é raro a falha na comunicação. Não se fala a mesma língua, cada qual quer que prevaleça sua opinião, sem que haja uma reflexão sobre o assunto… Mas quantos Kevins e quantos jovens racistas, nazistas, precisaremos ver crescerem diante de nossos olhos para tomarmos uma atitude? Precisamos falar sobre eles.