Onomatopeia

O som que se vê

Por André Campos de Carvalho* | Adaptação web: Tayla Carolina

É um fato: muitos de nós tivemos o primeiro contato com a leitura e com as nuances da língua portuguesa através de histórias em quadrinhos, e hoje se trabalha o material em sala de aula (vide VERGUEIRO, 2006). Entender a linguagem própria das HQs nos ajuda, enquanto professores e orientadores de novos leitores, a extrair o máximo desta linguagem, que ajuda na percepção de mundo e no desenvolvimento de imaginação e criatividade.

Segundo Juan Acevedo (1990, p.67), do ponto de vista material HQs são apenas tinta sobre papel, o que limita bastante a expressão, e elas se constituem como linguagem através das soluções que desenvolvem para esta limitação: nos referimos à expressão das personagens, à textura sonora, à sugestão de movimento e ao fluxo do tempo.

Para este artigo, tentaremos entender um destes elementos, as onomatopeias. Este elemento, junto com os balões e as imagens, são a “trilogia simbólica” constitutiva das HQs (CAGNIN, 2014, p. 155), criadas para resolver as quatro limitações apontadas.

Recursos verbais e visuais

Antes de seguir em frente, uma breve, porém pertinente, observação sobre nosso estudo: assim como um romance pode ser analisado conforme o uso que o autor faz das palavras e da gramática, a linguagem das HQs  reúne uma série de recursos verbais e visuais para criar uma narrativa.

É preciso ter em mente que, por linguagem das HQs, referimo-nos ao conjunto dos recursos desenvolvidos para superar aquelas limitações de representação, e analisá-los separadamente desmonta o conjunto, e perdem-se suas características próprias. O que realizamos aqui é uma vivissecção e tem fins analíticos somente.

Iniciamos por uma definição do termo: onomatopeia é uma palavra de origem grega (onomaton, substantivo, nome; e poíesis, criação) e pode ser entendida como a afiguração de um termo, ou a reprodução visual de um som, ou ainda, o “uso de um termo que sintetiza a situação indicada pelo som” (RAMOS, 2009, p. 80). Cirne (1972, pp. 33-34) concorda com esse aspecto: “se ainda não se atingiu a radicalidade joyceana (cf. Finnegans Wake) na concreção de novos sons onomatopaicos, conseguiu-se plasmar, em cores e formas, uma intensa comunicação sonora”.

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Ressaltamos o “cores e formas” de Cirne: assim como a expressão das personagens se fundamenta amplamente na simbologia das cores e na intensidade sugerida por tamanho e forma da imagem, por vezes bastante peremptórios, da mesma forma as onomatopeias.

Chinen (2011, p. 21) aponta o efeito estético equivalente ao efeito sonoro criado com a imagem do som. Bons exemplos podem ser encontrados hoje nos mangás (as HQs de origem japonesa), e na clássica graphic novel O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, que mostra onomatopeias profundamente ligadas aos movimentos que ajudam a sugerir.

Sugestão de sons

Estamos falando de uma palavra que, desenhada no quadrinho ou em relação a ele, torna visível um som do ambiente em que se desenvolve a ação. À própria palavra escrita pode ser adicionado o elemento gráfico que expressa as características do som representado.

Claro, onomatopeias não têm o poder de substituir a percepção sonora do leitor, apenas de sugerir alguns sons. E estes sons visuais são escolhidos pelo autor ou pelo desenhista conforme a necessidade do roteiro, assim como suas cores e formas, signos de sua intensidade. Exemplos bastante usuais de onomatopeias são as palavras “crash”, “bum”, “bang”, “splash”, “bam”, “zum”, “blob”, “slap”, “sniff”, “thump”.

 

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Umberto Eco, no artigo “Leitura de Steve Canyon”, publicado em seu clássico Apocalípticos e Integrados, levanta uma importante observação acerca da construção das onomatopeias. A maior parte das onomatopeias que conhecemos e vemos aplicadas às HQs tem origem na língua inglesa.

Lembremos que a maior parte dos elementos constitutivos das HQs é obra de artistas norte-americanos, incentivados pelo desenvolvimento da mídia impressa ocorrido no começo do século XX. Então, parece natural que eles fundamentassem a criação destes sons visuais em sua própria língua.

Assim, “crash”, ou o som de algo que se espatifa, deriva do verbo to crash, espatifar; “rattle”, ou o barulho de algo que treme, deriva do verbo to rattle, chacoalhar; “slam”, ou o barulho de uma porta que bate, deriva do verbo to slam, bater (uma porta ou janela); e assim por diante.

Assim, em inglês, estas palavras são neologismos no uso (ao indicar um som), mas têm uma conexão imediata com o significado original do som que representam. Ao transpor diretamente a onomatopeia para qualquer outra língua, essa conexão deixa de ser imediata, e passa a ser associada ao significado mais pela relação com a imagem no quadrinho.

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa – Ed. 68

 

*André Campos de Carvalho é Mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, tendo defendido a dissertação “A comunicação do Imaginário nas HQs do Pato Donald: Um estudo da linguagem de Carl Barks” (2012); Bacharel em Comunicação Social com ênfase em Propaganda e Marketing pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (1998); professor de Semiótica e Teoria da Comunicação na Universidade Anhembi Morumbi; traduziu o livro “Carl Barks e os quadrinhos Disney: Desmascarando o mito da modernidade” (Criativo, 2017), de Thomas Andrae; redator e revisor.

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