O espaço profano

A sala de aula das escolas públicas reflete a falta de políticas adequadas e de um olhar atento a docentes e alunos

Por Maria Beatriz* | Adaptação web Tayla Carolina

Sim, a sala de aula tem essa aura de sagrada. Mas de qual sala de aula estamos falando? Certamente não daquelas que aglomeram mais de 40 alunos, onde o professor tem dificuldades até para enxergar os que se acomodam mais ao
fundo.

Não da sala de aula muitas vezes repleta de equipamentos quebrados, em que os estudantes equilibram seu material nas próprias pernas. Não da sala de aula que reúne em seu bojo alunos famintos que só estão lá à espera do sinal do intervalo para, enfim, se alimentarem. Não da sala de aula que se improvisa em barcos e taperas por esses rincões do Brasil.

É preciso levar em consideração que há dois mundos em nossa educação. Um, onde alunos bem alimentados, filhos de pais letrados, com acesso a bens e informação, desfrutam de adequados materiais didáticos, aulas planejadas, atividades extracurriculares e um sem número de outras estratégias educacionais a seu serviço. Mantenedores esforçam-se para encontrar professores capacitados, donos de títulos de mestre e doutor, alinhados com seus valores. E tudo tem um preço, alguns exorbitantes.

Do outro lado da história, encontram-se as escolas públicas e seus inúmeros problemas que se materializam “ad aeternum”. Nestas também há planejamentos, projetos pedagógicos, diretores que dão nó em pingo d’água para manterem a educação nos trilhos. Ou não.

E, muitos docentes, imbuídos da mais sincera motivação, tentam desconstruir ideias antigas, uma delas, o enfileiramento. Mas como proceder em uma sala onde os alunos, filhos de pais que não tiveram acesso à educação, ficam praticamente empilhados? Vamos fazer a aula no pátio, em círculo, anima-se o professor. Mas não é possível, há um vazamento, o diretor não aprova porque os alunos podem tentar escapar…

Nesses dois mundos, a relação professor/aluno se estabelece de forma diferente: sabemos que, em algumas escolas particulares, para onde alguns pais omissos e/ou despreparados transferem a educação de seus filhos, professores viram “reféns” daqueles que deveriam ser seus orientandos.

São os tristes casos dos que julgam ser a “grana” que manda, a mesma que “ergue e destrói coisas belas”, já disse Caetano Veloso. Pois a “grana” que também constrói projetos educacionais modernos e atrativos é a mesma que lhe é expressa em frases como “Não vou fazer e pronto, qual o problema? Meu pai paga seu salário”.

Do outro lado, nas regiões periféricas das cidades, há professores que adotam a tática de se tornarem invisíveis, com medo da violência que pipoca aqui e ali. Vítimas de outras vítimas do descaso e da falta de oportunidades e, nesses casos, até se assemelham aos reféns dos bem-nascidos.

Entre essas duas realidades, claro, há ilhas de excelência, tanto no ensino privado quanto no público. É para essas escolas, com o qual concordo plenamente com o exposto anteriormente na seção Ponto de Vista, que se debruçam pesquisadores, coordenadores, gestores, docentes em busca de novos caminhos para a educação.

 

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa – Ed. 69

 

*Maria Beatriz é educadora e professora de Língua Portuguesa.