Diferença entre Mim e Eu

Por Leo Ricino | Adaptação web: Tayla Carolina

Considerações iniciais

Ao longo dos meus 50 anos de sala de aula, ensinando e aprendendo os meandros de nossa Língua, tenho visto muitos mitos e tabus, desde formas simplistas de alguns conceitos, como, por exemplo, “ditongo é o encontro entre duas vogais na mesma sílaba” (cada sílaba só pode ter uma vogal, nem mais, nem menos), até purismos como “não se pode usar ATRAVÉS DE como equivalente de POR MEIO DE”.

Com o advento das redes sociais então, a coisa ganhou proporções inimagináveis. As redes sociais são o lugar onde muitos se julgam especialistas em tudo, onde vários têm opiniões definitivas e incontestáveis, onde as verdades pessoais — o doxa — são praticamente impostas como verdades absolutas, inquestionáveis.

A qualquer posição contrária à dos “sábios das redes”, vêm pedras e mais pedras, com ofensas e tudo. Humberto Eco tinha toda razão quando disse que as redes são o lugar ideal para manifestações de imbecis. Felizmente há coisas boas também no ambiente virtual.

 

→ Gêneros do discurso e sequências didáticas

 

E é nas redes sociais que tenho visto certas defesas sobre normas da nossa Língua, elevando normas gramaticais à condição de regras gramaticais. Regras são de ortografia e acentuação. Já em “A maioria dos internautas sabe (ou sabem) tudo”, usar o verbo no singular ou no plural, nesse caso, é uma questão de norma e não de regra.

Encaro norma e regra como sinônimos, mas isso não garante que se pode usar uma palavra pela outra. Há sinônimos realmente perfeitos? Sem que queiramos afrouxar as normas do bom uso linguístico, é preciso sempre ter em mente que língua viva é o campo ideal das alterações em seu percurso histórico.

É preciso aceitar que aquilo que vale hoje não necessariamente valerá daqui a alguns anos. Tanto quanto o que valeu anos atrás não vale hoje. Mas o caso-mote deste artigo, o emprego de MIM e EU em determinadas situações, não é coisa de redes sociais e sim de sala de aula mesmo,com ensinamentos nem sempre calcados no bom senso.

Nem falo em lógica, que língua nem sempre segue lógica. Refiro-me, enfaticamente, a bom senso mesmo.

Mim x Eu (ou para mim x para eu) – vamos desfazer um mito

Há um mito segundo o qual sempre que couber um desses dois pronomes — EU ou MIM — antes de verbo o EU é obrigatório. Nada mais falso. Veja-se o caso abaixo:

Isso é bom para mim.

Creio que a ninguém a frase acima soe estranho. Trata-se de uma frase correta do nosso Português. Muito bem. Vamos trocar o sujeito ‘Isso’ por uma oração equivalente:

Alcançar essa graça é bom para mim.

Também essa forma não soa estranho a ninguém. Correta. Sabemos que oração tem verbo, flexionado ou não. Nessa frase, temos, portanto, duas orações, porque há dois verbos: Alcançar e é. E é uma frase composta, como a anterior, na ordem direta, ou seja:

• Sujeito – ‘Isso’ na primeira frase e ‘Alcançar essa graça’ na segunda
• Verbo – é
• Complemento – bom para mim, no caso aqui, predicativo, cujo núcleo é “bom” e o “para mim” é seu complemento nominal, já que esse adjetivo tem sentido relativo.

 

→ Miguel de Cervantes: vida e obra do gênio da literatura ocidental

 

Ora, na junção de orações, formando o período composto, nem sempre usamos as frases na ordem direta. Até preferimos a ordem inversa. Portanto, podemos dizer assim:

É bom para mim alcançar essa graça.

Houve apenas uma simples troca de lugar das duas orações que compõem a frase. Nada mais, nenhuma mudança de função sintática. Então, se em Alcançar essa graça é bom para mim, por que teríamos de mudar o MIM para EU em É bom para mim alcançar essa graça?.

Ou seja, nas duas ordens, a direta e a indireta, as funções de todos os termos continuaram exatamente as mesmas.

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa – Ed 68