Veja mais sobre metaplasmos modernos

Você já ouviu falar em metaplasmos? Leitores mais provectos com certeza que sim, mas a juventude não deve ter ouvido essa palavra

Texto: Leo Ricino | Fotos: Divulgação | Adaptação Web: Rodrigo Sodré

Metaplasmo, numa primeira definição, são os desvios fonéticos na transformação do latim vulgar para o português. Eu disse fonético e não semântico, pois o sentido das palavras não sofre mudanças com essas alterações fonéticas. Posteriormente, os metaplasmos atacam as palavras já aportuguesadas e vão adaptando-as aos tempos modernos.

Só para se ter ideia, o latim spiritu gerou ‘espírito’, com o acréscimo do E no início; minacia incorporou o artigo A e virou ‘ameaça’. Já o latim plenus gerou nosso atual ‘cheio’, com a transformação do pl em ch e o desfazimento do hiato resultante, tornando-o ditongo com a intercalação da semivogal ‘i’. Alguns metaplasmos transpõem elementos na mesma palavra, como semper, que gerou nosso atual ‘sempre’, ou ainda inter, que gerou ‘entre’. Às vezes ocorria a transposição da sílaba tônica, como idólu, paroxítona, que virou ‘ídolo’, proparoxítona. Etc., etc.

ALGUMAS CURIOSIDADES FONÉTICAS
Os cronistas antigos, como Fernão Lopes, nos mostram grafias interessantes. Por exemplo, “prinçipe”, assim, com cedilha, ou ainda “reçebeo”, etc.

O fato é que a letra C representava o fonema K, o que quer dizer que, se não se colocasse a cedilha sob ela, o som dessa letra C seria igual a esse K. Então, toda a série ÇA, ÇE, ÇI, ÇO e ÇU era cedilhada, para representar o som fricativo linguodental e não o oclusivo velar (k).

No entanto, nossa primeira gramática, publicada no ano de 1536, diz algo curiosíssimo, que transcrevo:

“Esta letra c com outro c debaixo de si virado para trás, nesta forma ç, tem a mesma pronunciação que z, senão que aperta mais a língua nos dentes.” (Fernão de Oliveira, A Gramática da Linguagem Portuguesa, Cap. XIV, p. 56, Imp. Nacional, Lisboa, 1975)

E é uma observação que o autor faz na sequência da explicação sobre a letra Z. Portanto, é possível entender que Ç já teve o som do Z. É uma pena que ele não tenha dado nenhum exemplo, pois o autor estava apenas explicando o modo e o ponto de articulação dos fonemas da época. Aliás, de forma brilhante, sem que houvesse os recursos de hoje. E só para confirmar a importância de Fernão de Oliveira como observador profícuo do momento da nossa língua, anos 1500, veja o que José Pedro Machado, nos estudos preliminares que fez ao livro Origem da Língua Portuguesa, 1606, de Duarte Nunes de Leão, escreveu, em 1945, sobre nosso primeiro gramático:

“Não falando da cultura, faça-se referência especial ao admirável poder de observação de que deu provas. Se ele vivesse hoje bastavam o belo ouvido e a grande capacidade descritiva que parecem tê-lo caracterizado, para o tornarem cientista de envergadura.” (p. 57)

MUDANÇAS E SEMPRE MUDANÇAS

Ora, a língua está viva e vai sofrendo alterações durante o seu percurso histórico. Isso ocorre com qualquer língua viva. David Crystal, no Pequeno Tratado sobre a Linguagem Humana, Ed. Saraiva, São Paulo, 2012, na página 139, diz taxativo: “Todas as línguas vivas experimentam mudanças. Precisa ser assim. Os idiomas não vivem isolados das pessoas que os usam. E já que as pessoas estão sempre mudando, também seu idioma sofre alterações.”

CURIOSOS METAPLASMOS MODERNOS
Só para que se tenha ideia das muitas alterações fonéticas, destaco que, por exemplo, o VOLP de 1943 (Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, traz convicto: ‘obeso’ (é). Ou seja, essa palavra tinha a vogal e aberta. Já o VOLP de 2009, a mais recente edição, em virtude da mudança de pronúncia dessa palavra ao longo do tempo, também traz convicto: ‘obeso’ (é ou ê). O mesmíssimo fenômeno ocorre com a palavra ‘obsoleto’. O VOLP de 1943 registra ‘obsoléto’, enquanto o de 2009 diz que é indiferente ‘obsoléto’ ou ‘obsolêto’ (os acentos são usados só para indicar a pronúncia).

Por desnecessário, fiquemos só com esses dois exemplos, que já nos mostram claramente como as pronúncias podem ir- -se alterando. No entanto, só porque veio à cabeça neste momento, peguemos a palavra ‘Roraima’, nome de um estado brasileiro.

Sabemos que a natureza da língua no Brasil mostra que vogais ou ditongos que antecedem ‘m’ ou ‘n’, em geral, são nasais e, portanto, fechados, como em ‘faina’ (fâina), ‘andaime’ (andâime), ‘paina’ (pâina). Todavia, o paulistano normalmente pronuncia ‘Jáime”, enquanto o carioca diz “Jâime”. Ou seja, pronúncia é algo difícil de discutir.

Voltemos à palavra ‘Roraima”. Creio que a maioria a pronuncia com o primeiro ‘a’ nasal, fechado: Rorâima. No entanto, há quem pronuncie ‘Roráima’. Quem está certo?

No muito útil livro CORRIJA-SE! de A a Z, Editora Nova Geração, 2.ª edição, São Paulo, 2011, Luiz Antonio Sacconi diz enfático:

“Roraima – Pronuncia-se Rorâima. Uma emissora de televisão, no entanto, insiste em divulgar a pronúncia “Roráima”, errônea. O ditongo ai e todas as vogais que antecedem fonemas nasais são fechados, no português do Brasil. Note que dizemos serra da Bocâina, Teodoro Bâima, pâina, fâina, Elâine, Gislâine, polâinas, Tâino, etc. A pronúncia viciosa “Roráima” é própria dos índios da região que, impossibilitados foneticamente de fazer soar o som nasal, pronunciam o ditongo ai oralmente; nós não temos essa dificuldade.” (p. 359) (Coloquei as palavras-exemplo em negrito).

O MOTE DO ARTIGO
Agora chegamos ao que quero discutir, o mote deste artigo. De há muito que, como grande ouvinte de rádio e como professor, ouço constantemente a palavra CIRCUITO, cuja vogal tônica é o U, sendo pronunciada CIRQUITO, com a vogal tônica transferida para o I.

Isso me chocava e me prendia a mente, pois toda a minha atenção se concentrava no “erro”. Até que, um dia, preso num dos congestionamentos de São Paulo, fiquei atrás de um caminhão cuja chapa era de CARAPICUIBA.

Aí embatuquei. Alguém pronuncia essa palavra com o U tônico: CARAPICÚIBA?

Creio que não. Todos (ou quase todos) a pronunciam CARAPIQUÍBA (Acentos usados só para indicar a pronúncia).

Em outras palavras, se está certo ou não, o fato é que o usuário da nossa Língua sente que C + vogal também pode soar como Q + mais vogal. Ou melhor, C + semivogal igual a Q + semivogal. E fui buscar outros exemplos.

Nos bons churrascos da vida, não vejo ninguém pedindo queijo COALHO, mas sim QUALHO, assim como ouço QUALHADA e não COALHADA. E também CHACOALHAR me soa como CHAQUALHAR. Entretanto, algumas palavras ainda resistem e mantêm sua originalidade,  como CUIABÁ (ninguém a pronuncia QUIABÁ) e talvez COELHO, mas nessa já sinto certo afrouxamento do C inicial.

Em outras palavras, já estou preparando meu espírito para que o CIRCUITO vire mesmo CIRQUITO, mas acho que isso não será tão breve assim.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Que fique claro que não estou defendendo esta ou aquela pronúncia. Apenas exponho aqui uma constatação. Existe uma norma-padrão tanto para a escrita quanto para a fala. Mas a norma-padrão não aprisiona a língua e sim tenta dar a ela um elemento facilitador ao harmonizá- -la, ao organizá-la, permitindo a todos a compreensão das mensagens transmitidas.

Como a língua reflete e é reflexo da sociedade, ela é passível de muitas e muitas transformações, quer na fala, quer na escrita. E Drummond já disse que lutar contra as palavras é a luta mais vã.

Outra intenção deste articulista quando busca temas polêmicos é tentar despertar que algum estudioso vá atrás do levantado e desenvolva tudo numa dissertação ou numa tese. Se alguém se dispuser, boa sorte.