Mario de Andrade, a “gramatiquinha” e a psicologia da fala brasileira

A antropofagia do Movimento Modernista encontra eco nessa obra marioandradiana, que questiona regras e normas, sem abandoná-las, mas dando à nossa língua uma feição tipicamente nossa

Por Abrahão Costa de Freitas | Adaptação web Renê Saba

Falar em Gramática é quase sempre um cataclismo. Um deus nos acuda capaz de abalar certezas e convicções. Há sempre quem tome partido contra ou a favor daquele imenso amontoado de regras que, ao longo de nossa vida escolar, foi responsável por muitas noites de insônia: abalos, tremores e estremecimentos. Provas de português sempre foram uma ameaça pairando sobre a nossa cabeça, como uma impiedosa ROSA DE HIROSHIMA pronta para despejar sobre nossa inocente pessoinha toda a fúria da sua carga de vulcão. Mas todos suportávamos impassíveis o sofrimento, pois, no final, o saldo de tamanha devastação seria positivo. A gramática nos ensinaria a falar e a escrever melhor. Bastava decorar tim-tim por tim-tim o que estava escrito ali naquele livrão. E pronto, seríamos os maiorais. Chefes, caciques, cabeças da língua e nada menos. O problema em toda essa propaganda otimista e esperançosa em favor da gramática é que ela não é uma só, nem a língua é apenas gramática.

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Embora a concepção da gramática como guardiã e artesã da língua ainda persista, é preciso ir além dela para que se compreenda o papel de uma e de outra na formação de um idioma (veja quadro Desembrulhando a Gramática). As questões linguísticas envolvidas na formação de um idioma estão intimamente ligadas ao cotidiano e dizem respeito a todos nós. Estão presentes em nossas atividades profissionais e em nossas relações familiares. Compreender isso é alargar os horizontes da gramática e da língua para além do óbvio. Afinal, essas questões não são apenas assunto para professores de línguas e gramáticos. Fazem parte do nosso dia a dia. Andam na boca do povo e aí está o “xis” da questão. Abordá-las é um exercício capaz não apenas de oxigenar o pensamento, mas também de revigorar a língua – fortalecendo a compreensão de que a competência linguístico-comunicativa das pessoas está intimamente ligada a contextos de uso específico, bem como às múltiplas atuações sociais que protagonizam.

E isso não é novo: para limpar o pó das ideias e varrer para longe qualquer confusão no que diz respeito ao estudo da gramática em situações reais de uso cotidiano, nas páginas a seguir faremos um breve passeio pela A gramatiquinha da fala brasileira, de Mário de Andrade, analisando seus desdobramentos e influências.

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FALAR BRASILEIRAMENTE

A primeira regra para perder o ranço contra a gramática é não falar em regras, ou seja, deixar fluir tranquilamente tudo aquilo que tem que fluir. Confiar na tal gramática internalizada da qual tanto falam os linguistas (veja quadro A Internalização Nossa de Todo Dia).

Sabedor disso, Mário de Andrade, em um dos envelopes em que guardava os rascunhos para a construção de sua gramatiquinha, escreve: “Não falar nem uma vez em regras. Nem tão pouco em normas, si possível (sic). Falar só em Constâncias”. Trocando em miúdos, desde o início, o mestre deixa claro que sua intenção não é criar ou analisar qualquer conjunto de regras tidas como padrão da boa escrita e do bem falar, mas registrar os traços peculiares e cotidianos do português brasileiro.

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A gramatiquinha da fala brasileira, de Mario de Andrade, é, portanto, uma fantasia repleta de mitos. Um mundaréu de ficção e invencionices. Um universo paralelo que, além de um amontoado de regras, reescreve o português possível a partir de uma língua brasileira tão nossa quanto o cafuné e o calundu.

No que diz respeito à essa malemolência da língua vale a pena consultar o instigante trabalho da pesquisadora Aline Novais de Almeida, da FFLCH-USP na instigante dissertação Edição genética da gramatiquinha da fala brasileira de Mário de Andrade.

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa – Ed.70