Letramento literário

As práticas sociais de leitura e escrita, na nossa sociedade ocidental e moderna, estão presentes em praticamente todos os setores de nossa vida. Segundo Magda Soares (2014), na leitura de um livro na escola ou de uma bula de remédio em casa, na execução de uma receita ou na orientação através das placas de rua, no momento em que uma criança ou um adulto analfabeto finge ler e mimetiza as convenções e estruturas linguísticas próprias da escrita, podemos ver diversos exemplos da utilização social da leitura e escrita em nosso cotidiano e, nesse sentido, enxergamos diferentes eventos de letramento

Por Aline Lorrana Maia* e Cesar Augusto de Oliveira Casella** | Adaptação web: Tayla Carolina

O termo letramento vem sofrendo ressignificações, em decorrência de amplas e diversificadas mudanças sociais e tecnológicas. Assim, pensar que existe apenas um tipo de letramento é insuficiente para a compreensão da vida contemporânea, pois os eventos de letramento resultam de diferentes contextos sociais e de diversas modalidades de linguagem, tais como a imagem e a música, entre outras semioses.

De acordo com Roxane Rojo (2009), é necessário o reconhecimento dos letramentos múltiplos, pois as práticas sociais de leitura e escrita variam no tempo e no espaço.

Perspectiva ideológica

Neste quadro, é importante entender a perspectiva ideológica do letramento. O letramento praticado atualmente nas escolas, como explica Natália Motenari (2013), acaba se mostrando reducionista, pois concebe a escrita desvinculando-a dos contextos e enxerga a escrita como um produto completo em si mesmo, o que é conhecido como
letramento autônomo.

Nessa perspectiva de letramento, a escola é a detentora dos saberes e formula um ensino voltado ao prestígio social dos indivíduos, o que passa longe de considerar a cultura e os saberes dos alunos.

Brian Street (2014) aponta, como alternativa de compreensão do fenômeno, o modelo ideológico de letramento, em que se leva em consideração o contexto cultural e social do indivíduo. Entende-se que o indivíduo carrega seus valores culturais, possui uma identidade e participa, corriqueiramente, de atividades de leitura e escrita que são entendidas como práticas efetivas de letramento.

O letramento literário é a parte dos estudos do letramento que toma a literatura como ponto de partida para a compreensão das práticas sociais de leitura e escrita. No livro Letramento literário: teoria e prática, Rildo Cosson postula que o ensino de literatura passe a ser “o processo de formação de um leitor capaz de dialogar no tempo e no espaço com sua cultura, identificando, adaptando ou construindo um lugar pra si mesmo” (COSSON, 2014, p. 120).

Postulação que se vincula ao modelo ideológico de letramento, pois não desprende o ensino do contexto cultural e social do indivíduo. Nesta mesma obra, o autor traz propostas práticas de sequências didáticas que visam promover o letramento literário.

A partir delas e da perspectiva ideológica do letramento, traremos aqui apontamentos teóricos para a elaboração de uma sequência básica de letramento literário.

 

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Sequência básica

A sequência básica é constituída por quatro passos: a motivação, a introdução, a leitura e a interpretação. O primeiro passo, a motivação, é uma etapa que vale-se de outros textos, como as narrativas clássicas, os contos de fada ou notícias de jornal, buscando despertar um imaginário coletivo e abrir caminhos para a experiência literária.

Neste ponto, caberia ao professor selecionar e preparar textos que incentivem e motivem o aluno a entrar na obra literária escolhida para ser trabalhada em sala de aula.

O segundo passo, a introdução, é uma etapa em que o professor deve apresentar o autor e a obra aos futuros leitores. Valendo-se da própria obra em estudo, pode-se valorizar a leitura da contracapa ou das orelhas do livro, além de que pode-se buscar as informações que contextualizam o texto a ser lido em obras de referência, em revistas eletrônicas ou sites especializados.

O terceiro passo, a leitura, é uma etapa em que o professor deve mediar o processo de leitura, o que é feito através de intervalos em que ele observa as dificuldades dos alunos. Nestas pausas no processo de leitura ocorre o trabalho sobre as dificuldades específicas enfrentadas pelos alunos, por exemplo as de vocabulário, buscando uma intervenção eficiente na formação de leitor dos alunos.

O último passo, a interpretação, é uma etapa dividida em dois momentos: o interior e o exterior. O momento interior é o do encontro do leitor com a obra, em que cada aluno constrói o seu entendimento.

O momento externo é o da socialização deste entendimento, no qual o aluno-leitor, ao término da leitura, tocado pela verdade do mundo ficcional que o autor revela, argumenta sobre o livro com os colegas, com o professor, e depois, para além dos limites da escola, aconselha a leitura do mesmo para a família, para outros amigos, e consolida na memória o mundo feito de palavras da literatura.

 

Para ler o texto na íntegra, compre a revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa – Ed. 68

 

*Aline Lorrana Maia é especialista em Linguagem, cultura e ensino pela Universidade Estadual de Goiás (UEG/ Campus Inhumas);

**Cesar Augusto de Oliveira Casella é mestre em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas. Professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG/Campus Cora Coralina).