Lendo o mundo e escrevendo a vida

Qual o papel do educador na formação de um leitor escritor?

Texto Rita Cássia Milharci | Adaptação Giovanna Henriques | Texto Shutterstock

 

Difícil identificar o que amedronta mais um aluno: um texto para ser interpretado ou uma folha em branco para que ele a preencha produzindo seu próprio texto. Estes dois atos parecem muito simples para quem analisa, fria e superficialmente, o desenrolar dos ensinamentos a partir da primeira série do ensino fundamental. A expectativa para que a criança comece a ler e escrever, seja por parte dos pais, seja por parte dos educadores, é muito grande; tanto que algumas crianças já vêm para a escola quase alfabetizadas.

 
O desafio, porém, não é apenas colocá-la em contato com as letras. Vai muito além disso. Há vários pequenos processos dentro deste processo maior chamado leitura e escrita. Quando o texto deixa de ser apenas um modelo do “bem falar e bem escrever”, passa-se a estudar outras funções intrínsecas às suas mais diversas finalidades. Um texto pode divertir, informar, sugerir, entreter, apelar, insinuar, argumentar e assim por diante. Como, então, aproximar o aluno deste mundo tão variado, fazendo com que ele consiga enxergar essa diversidade e entendê-la? Qualquer que seja o texto, ele não é um objeto isolado. Foi produzido a partir de uma certa realidade, para atingir um determinado grupo social e com uma finalidade específica a cumprir. Ninguém escreve simplesmente por escrever. E todos têm um foco em comum – o leitor.


Para cada finalidade, o texto certo. A partir daí, é preciso colocar o aluno em contato com esta realidade. Ele deverá inferir que um texto não é apenas um emaranhado de palavras. Ele tem uma função, tem diferentes funcionalidades. Não precisa necessariamente ser composto apenas por palavras, pode trazer imagens também, ou apenas só imagens. Dentre os textos escritos podemos ter: crônicas, romances, poemas, reportagens, editoriais, anúncios, etcAs Histórias em Quadrinhos podem ser usadas para exemplificar os textos que possuem apenas imagens ou mesclam palavras e imagens; assim como as tiras e os anúncios publicitários.

 

Diante da vivência de cada grupo e do tipo de texto a ser abordado para leitura, é necessário um “warm up” que conduzirá os alunos a identificarem o texto dentro de um determinado contexto social. Existem várias estratégias das quais podemos lançar mão: a aproximação com a realidade, a aproximação com outros textos parecidos, o questionamento do professor que, num primeiro momento, cumpre o papel do interlocutor, concordando, discordando e acrescentando também. Informar quem é o autor, situá-lo em um momento histórico, falar sobre suas obras, sobre suas características na composição de seus trabalhos, comparar com algum outro texto conhecido, hipotetizar e intertextualizar ajudam o aluno a ter um melhor contato com o conteúdo a ser lido levando-o a um entendimento melhor do mesmo.

 
Além da capacidade de decodificação, é preciso adquirir a capacidade de compreensão. Um texto precisa ser dissecado. Tal e qual o aluno deve dialogar com ele, esse mesmo aluno deve perceber que aquele dialoga com outros textos, com a vida e com o mundo. E será a partir destes diálogos que ele adquirirá a capacidade de se conectar com tudo que o cerca. Situar-se dentro de um contexto, passar a usufruir de sua cidadania e sentir-se parte da grande engrenagem que move o mundo. Entender o que se lê e escrever o que se pensa, sente e sabe são tarefas interligadas.

 

A partir da leitura e compreensão de um texto, pode-se, como consequência óbvia, construir outros textos para expor ideias, entreter pessoas, alegrar vidas, informar, persuadir, divertir, defender, acusar, etc, etc. O papel que cabe ao educador é infinitamente maior do que apenas depositar conhecimento. Por nosso intermédio é que a criança ou adolescente receberá as ferramentas para que um dia venha a produzir textos coesos e coerentes. As dificuldades não existem apenas para alunos das séries iniciais; muitos chegam ao ensino médio sem a capacidade mínima de leitura exigida para que consigam compreender um texto simples. Ao pedir para meus alunos do terceiro ano do ensino médio que lessem um texto qualquer de seu livro didático, pude perceber que muitos não têm a menor noção das pausas, não conseguem pronunciar as palavras com ortografia um pouco mais complicada, não sabem qual a sílaba tônica de muitas palavras, estejam elas acentuadas ou não.

 

 

Quase desnecessário dizer que, no decorrer de sua vida, o indivíduo terá de ler e interpretar um sem número de textos em sua língua materna. Como ficam, então, aqueles que possuem dificuldades terríveis de leitura e, por conseguinte, de interpretação? Enquanto estudantes, como conseguem notas razoáveis em suas provas? Percebo que os mesmos que apresentam tais dificuldades também as apresentam na hora de construir um texto. Não adianta não querer enxergar, mas este tipo de dificuldade vem desde a alfabetização. Malfeita, digamos assim. Se o indivíduo não apresenta nenhum tipo de distúrbio cognitivo que o impossibilite de aprender, onde reside o problema? Por que algumas crianças chegam à 5ª série (6º ano) com graves problemas de alfabetização?

 
Este ano trabalhei com terceiros anos do ensino médio e com um sexto ano. Em alguns alunos, tanto de uma série quanto de outra, pude encontrar dificuldades semelhantes com relação à leitura, compreensão e produção de textos; porém, uma coisa que me chamou a atenção foi uma resistência maior por parte dos menores com relação a mudanças. Muitos não admitem que estão errados e mostram-se completamente desinteressados. Acham que já sabem ler e escrever e isso basta!

 

 

Como nas escolas do estado a média para aprovação é cinco – e se tiver quatro pontos e meio esta nota deve ser transformada em cinco –, o esforço para passar de ano precisa ser mínimo e isto acaba fazendo com que ocorra certo comodismo por parte dos alunos. Outra coisa que acaba facilitando a vida deles são as provas em forma de testes. Por experiência própria pude constatar que, em provas com questões dissertativas, um grande número de alunos sequer se dava ao trabalho de responder nem que fosse uma única linha. Seria só preguiça? Também, mas uma boa porcentagem, na realidade, não consegue formular uma resposta com mais de três linhas em que haja coerência. Talvez por falta de boa vontade, talvez por incapacidade; o certo é que, todo ano, centenas de jovens saem à procura de emprego ou de uma vaga nas universidades que proliferam por aí e alguns mal sabem escrever o próprio nome com iniciais maiúsculas. Que tipo de profissionais teremos num futuro próximo?

 
Por isso cabe, principalmente ao professor de língua portuguesa, fazer com que estes jovens leiam cada vez mais, interpretem cada vez mais e escrevam cada vez mais. Deve-se entender que somos instrumentos na construção de cidadãos que, por intermédio de nossas orientações, passarão a ler o mundo e a escrever a vida.

 

Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa Ed. 62