Gêneros do discurso e sequências didáticas

Instrumentos para a formação de leitores e escritores proficientes

Texto: Aline Fernanda Camargo Sampaio | Fotos: 123rf | Adaptação Web: Rodrigo Sodré

O processo de ensino da leitura e da escrita constitui atualmente uma questão primordial tanto para a instituição escolar como para estudos da área. Para a instituição escola porque se tem o conhecimento de que o domínio da escrita e da leitura é essencial à criança, uma vez que, por meio desses instrumentos, ela adquire outras tantas ferramentas para expressar e organizar seus sentimentos, ideias e emoções, para revelar seu universo psíquico e compreender a si mesma, o mundo e a cultura à sua volta.

A preocupação em estudar os gêneros do discurso não é algo que acontece somente nos dias de hoje. Ela se iniciou com Platão e Aristóteles, a partir da necessidade de entender como se daria a representação do literário e como esta seria feita na prática (MARCUSCHI, 2008).

Com a publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1998), a noção de gênero como instrumento de ensino e aprendizagem passou a ser um tópico frequente no debate didático de como ensinar português: “Todo o texto se organiza dentro de determinado gênero em função das intenções comunicativas, como parte das condições de produção dos discursos, os quais geram usos sociais que os determinam” (BRASIL, 1998, p. 21).

É importante lembrar que os gêneros do discurso estão presentes na vida de todas as pessoas e são utilizados com um propósito comunicativo já determinado pelo próprio usuário, num processo de interação social. Quando alguém faz o uso de algum deles, por exemplo, da carta, da notícia jornalística, da receita culinária, do manual de instruções de um aparelho, já se conhece para que cada um serve, o porquê de utilizá-los e o que se espera alcançar, por meio do seu uso, na comunicação com os demais interlocutores do discurso.

Grupo de Genebra
O projeto do chamado Grupo de Genebra — constituído principalmente por autores como Joaquim Dolz e Bernard Schneuwly — resgatou a proposta de gêneros postulada por Mikhail Bakhtin, e a aplicou em suas escolas, para desenvolver uma didática de produção de textos a partir dos gêneros.

Dolz e Schneuwly, a partir das concepções estabelecidas por Bakhtin, definem gênero como “formas relativamente estáveis tomadas pelos enunciados em situações habituais, entidades culturais intermediárias que permitem estabilizar os elementos formais e rituais de práticas de linguagem” (1999, p. 7). Segundo eles, existem três dimensões para caracterizar um gênero: 1) os conteúdos e os conhecimentos que se tornam dizíveis a partir deles: 2) os elementos das estruturas comunicativas e semióticas partilhadas pelos textos; e 3) as configurações específicas de unidades da linguagem. O gênero consegue, apesar da diversidade das práticas de linguagem, conservar certa regularidade, que lhe confere uma estabilidade de fato, podendo ser reconfigurada a partir de mudanças no curso da linguagem.

As atividades que se propõem a trabalhar com a linguagem não podem fazê-lo sem a presença dos gêneros. Segundo Dolz e Schneuwly (1999, p. 6), “é através dos gêneros que as práticas de linguagem encarnam-se nas atividades dos aprendizes”, justamente porque os gêneros são a realização prática daquilo que é a linguagem. A aprendizagem da linguagem situa-se justamente no espaço entre a prática e a atividade propriamente dita, pois é nesse espaço que acontecem as maiores transformações por parte do aprendiz para a construção de práticas de linguagem. De acordo com os autores, “o gênero é um megainstrumento que fornece um suporte para a atividade nas situações de comunicação e uma referência para os aprendizes” (DOLZ & SCHNEUWLY, 1999, p. 7).

Em sala de aula
Assim, o trabalho com gêneros do discurso em sala de aula mostra-se um instrumento eficaz para aquisição de saberes tanto de leitura quanto de escrita. Sabemos que a leitura proficiente é uma atividade complexa que envolve muitas competências e habilidades, exigindo uma aprendizagem progressiva. Nesse sentido, o professor deve possibilitar aos alunos o contato frequente com diferentes gêneros. Isso só será possível por meio de um ensino sistemático, que pode acontecer por meio das sequências didáticas, uma vez que procura, em suas atividades, contemplar os instrumentos comunicativos e linguísticos condutores de aquisição de novos saberes e da apropriação das habilidades indispensáveis para uma leitura e uma escrita de qualidade.

Sequência Didática: considerações importantes
A Sequência Didática (SD) é um instrumento para realização de atividades sistemáticas, envolvendo os gêneros do discurso, proposta por Dolz, Noverraz e Schneuwly (2004), como tentativa de garantir aos alunos diferentes capacidades de uso da linguagem. A finalidade do trabalho com SD é propiciar condições concretas de aprendizagem, realizando tarefas, por meio de etapas, para a produção/leitura de um gênero. Dolz, Michèle Noverraz e Schneuwly definem a SD como “um instrumento de atividades escolares organizadas, de maneira sistemática, em torno de um gênero textual oral ou escrito” (DOLZ, NOVERRAZ, SCHNEUWLY 2004, p.97), levando-se em conta a comunicação em situação real:

Uma sequência didática tem, precisamente, a finalidade de ajudar o aluno a dominar melhor um gênero de texto, permitindo-lhe, assim, escrever ou falar de uma maneira mais adequada numa dada situação de comunicação. (DOLZ, NOVERRAZ, SCHNEUWLY, 2004, p. 97)

No Brasil, o termo sequência didática apareceu pela primeira vez nos Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental como atividades sequenciadas e o conceito que lhes fora dado não se difere da proposta da Escola de Genebra:

São situações didáticas adequadas para promover o gosto de ler e privilegiadas para desenvolver o comportamento do leitor, ou seja, atitudes e procedimentos que os leitores assíduos desenvolvem a partir da prática de leitura: formação de critérios para selecionar o material a ser lido, constituição de padrões de gosto pessoal, rastreamento da obra de escritores preferidos etc. (BRASIL, 1997, p.63)

No modelo de sequência didática criado por Dolz e Schneuwly, as atividades a serem realizadas são divididas por módulos, cada um deles possui um objetivo diferente a ser alcançado. A quantidade destes não é determinada e fixa, ficando ao critério do professor estabelecer esse quantitativo, afinal, eles existem na estrutura de uma SD para sanar todas as deficiências percebidas pelo docente nas práticas de oralidade, leitura e escrita.

Ao recorrer à SD pretende-se criar situações de aprendizagem, levando-se em conta uma situação real de uso da língua. Partindo dessa compreensão, os autores apresentam a estrutura de base de um trabalho didático, com gêneros do discurso, organizado a partir do seguinte esquema:

Interação verbal
O trabalho com a SD, envolvendo um gênero do discurso específico, parte da apresentação de uma situação sociocomunicativa concreta, momento em que o professor subsidia na construção de um contexto sociodiscursivo no qual o estudante é convidado a interagir responsivamente. De acordo com os autores, é o momento de refletir sobre uma necessidade real de interação verbal, questionando a quem ela será dirigida, que forma assumirá e quem participará da produção.

A primeira produção tem um papel central como reguladora da sequência didática, tanto para os educandos quanto para o professor, momento no qual o aluno encontrar-se-á com o gênero em sua forma escrita. Após a primeira versão escrita, alguns “módulos” são planejados a fim de que os alunos desenvolvam suas habilidades e conhecimentos relativos ao gênero, sua esfera de circulação, marcas de início e fim, finalidade da produção, personagens, entre outras características deste. A atividade de revisão objetiva identificar os possíveis problemas na produção inicial, com o propósito de superar os erros oferecendo aos sujeitos subsídios relacionados à estrutura do gênero trabalhado.

A produção final é o momento no qual o professor poderá fazer uma avaliação não de maneira formativa, mas num processo somatório os avanços dos alunos, a fim de que estes obtenham um controle sobre sua própria aprendizagem, tendo ciência do que produzem, por que produzem e como produzem.

Vale lembrar, ainda, que o trabalho de análise linguística é parte da rotina da sequência didática, possibilitando aos discentes refletirem sobre os possíveis deslizes presentes em suas produções a fim de repará-los posteriormente, vindo dessa forma, despertar nos alunos uma visão reflexiva sobre sua escrita, de modo que, eles mesmos, possam fazer uma autoavaliação e identificar possíveis insucessos em sua produção. No final, cabe ao docente, analisar tais deslizes em parceria com o grupo, quantas vezes forem necessárias, o que acarretará na apropriação das especificidades de cada gênero proposto, salientando que cada correção deve ser utilizada para explicar minuciosamente o que não ficou claro.

Dessa forma, a prática docente aliada às sequências didáticas contribui para o aprendizado efetivo das habilidades de leitura e escrita, uma vez que os alunos não serão expostos apenas uma única vez ao gênero do discurso estudado. Outros textos congêneres com a mesma temática normalmente são pesquisados, lidos e trazidos para discussão em sala de aula, o que proporciona aos discentes um contato mais abrangente com a língua materna.