Facebook: o falso antagonista

A rede social pode ter muitas vantagens na interação do aluno com a sala de leitura

Texto: Tiago Eloy Zaidan | Fotos: Shutterstock  | Adaptação Web: Rodrigo Sodré

Dentro de muitas instituições de ensino, as bibliotecas, apesar de se voltarem ao público escolar, passam longe de seduzir os estudantes. Estes, não raro, acorrem aos espaços com o apressado objetivo de se desincumbirem de missões outorgadas pelos professores.

Não surpreende que as enciclopédias tenham ocupado por longa data o posto das vedetes das salas de leitura. Com seus verbetes sistematizados, supostamente trazendo exatamente aquilo que o professor quer ler, as enciclopédias se configuram como o emblema da objetividade desejada pelos discentes ao ingressarem no ambiente das bibliotecas escolares.

Não é por acaso, portanto, que o pesquisador das ciências da Informação Luiz Milanesi – em seu clássico da biblioteconomia Ordenar para desordenar: centros de cultura e bibliotecas públicas – desvela o cenário das bibliotecas na terra do cruzeiro do sul como desafiador. Se mesmo como fonte de pesquisa escolar as bibliotecas são subutilizadas, ainda menos usual é a visita a tais espaços por prazer. O passeio
descompromissado, aliás, não é sugerido no contexto de uma visita às bibliotecas, as quais, antes, são em geral relacionadas a obrigação, ou pior, a sacrifício.

É uma pena.

Uma biblioteca de acervo multifacetado, ao trazer fontes diversas, contraditórias entre si, contribui com a dialética e com a pluralidade inerente à democracia. Ao contrário dos meios de comunicação de massa, os quais tendem à reprodução de discursos isentos de contradição, ou seja, de caminho único que, tal como o verbete de uma enciclopédia, tende a ser adotado pelo receptor como um discurso objetivo e uno.

A recepção de informações pelas vias de uma biblioteca é mais complexa e ativa, pois exige a avaliação do leitor, frente aos diversos caminhos apontados, conforme defende Luiz Milanesi, na já citada obra Ordenar para desordenar. Trata-se de um atributo impagável, especialmente no atual contexto global, marcado por discursos de intolerância, os quais flertam com o totalitarismo.

É preciso trazer os alunos para dentro das bibliotecas — sem que eles sejam obrigados a isso, evidentemente. Na capital paraibana, em uma iniciativa referencial, os técnicos da biblioteca do campus João Pessoa do Instituto Federal da Paraíba (IFPB) percorreram as salas de aula para consultar os estudantes das turmas do ensino médio integrado sobre quais títulos de literatura eles gostariam de encontrar no acervo. “A gente queria saber quais eram os livros, realmente, que eles queriam. Livros de literatura. Livro como entretenimento”, explica o bibliotecário e documentalista Thiago de Lima Silva, o qual participou da ação em 2014. Uma lista foi passada em cada turma para que os alunos colocassem os títulos dos livros de literatura que os interessavam. Como o Instituto Federal estava com verba para a ampliação do acervo, os bibliotecários levaram em consideração os títulos mais recorrentemente mencionados pelos estudantes. As obras indicadas pelos alunos acabaram servindo de chamariz e trouxeram novos usuários para dentro das dependências da biblioteca.

A comunicação organizacional também pode contribuir com a iniciativa de qualquer espaço cultural, com potencial para amplificar a mensagem de cultura e cidadania de uma biblioteca. Vale, inclusive, repaginar a identidade visual do acervo e criar uma logomarca que dialogue com o público-alvo.
Fruto da articulação da coordenação do setor com o Departamento de Comunicação do campus, a biblioteca do IFPB João Pessoa ganhou a sua própria marca, com traços despojados, nitidamente voltados para o público jovem, o qual compõe a maior parcela dos estudantes da instituição. A biblioteca, fundada em 3 de dezembro de 1976, foi batizada com o nome do ex-presidente da república Nilo Peçanha (1867-1924), que governou o Brasil na primeira década do século XX e criou o embrião do que se tornaria a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, da qual faz parte o IFPB. Uma imagem estilizada da foto presidencial de Nilo Peçanha compõe a logo criada para o setor.

Plataformas de redes sociais

Dentre os recursos de comunicação disponíveis, as opções online, ou seja, conectadas à internet, destacam-se não apenas pelo baixo custo como pelo potencial de alcance junto ao público jovem.

O ambiente virtual – justo ele, não raro apresentado apressadamente como o “vilão” que afasta os adolescentes dos livros – oferece múltiplas oportunidades para as bibliotecas não apenas promoverem os seus serviços como, também, oferecê-los. Um exemplo, já tradicional, de serviço prestado pelas bibliotecas – especialmente as universitárias – através da internet, são os repositórios institucionais, por meio dos quais as instituições de ensino e pesquisa disponibilizam, de forma organizada, para o grande público da rede mundial, os resultados das atividades acadêmico-científicas levados a cabo por seus quadros fixos ou por estudantes, tais como dissertações e teses.

Todavia, quiçá a grande vedete da internet são as redes sociais. Dados do Ibope Media de 2013 mostravam que, no Brasil, as plataformas de redes sociais contabilizavam mais de 46 milhões de usuários, o que equivalia a 86% dos 53,5 milhões de usuários ativos de internet no país.

A rigor, rede social é a conexão de pessoas, ou grupo de pessoas, motivadas por interesses em comum. As redes sociais são, portanto, anteriores à internet. As bibliotecas já eram potenciais ferramentas de suporte às redes sociais, na medida em que possuíam a faculdade de promover a intersecção de diferentes pessoas e grupos com interesses específicos.

No entanto, é preciso admitir que a internet dotou as redes sociais de outra dimensão ao expandir as possibilidades de conexão entre pessoas e grupos de pessoas. O FaceBook, o Twitter o e o YouTube são exemplos de ferramentas de suporte que a web legou para as interações das redes sociais, amplificando-as. Justificadamente, tais ferramentas passaram a chamar a atenção dos gestores de bibliotecas.

Um levantamento feito pelos pesquisadores Adriana Ribeiro, Ramon Leite e Humberto Lopes, realizado entre 26 de junho de 2012 e 22 de julho de 2012 com bibliotecas centrais de universidades públicas federais brasileiras, mostrou que, na ocasião, o Twitter era a rede social mais utilizada pelas instituições pesquisadas (68%, ou 21 bibliotecas). Na sequência, apareciam o FaceBook (58%, ou 18 bibliotecas) e o blog (26%, ou oito bibliotecas). Outra rede social importante, o YouTube, surgia apenas em sexto lugar, com 13%. A pesquisa – a qual foi publicada na Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação – revelou também que 60% das bibliotecas pesquisadas mantinham o perfil na rede social atualizado, o que indicava uma manutenção.

As redes sociais de relacionamento, a exemplo do FaceBook, possibilitam e incitam a conexão entre pessoas ampliando as interações e os compartilhamentos de informações entre elas. Não por acaso esse é um terreno propício para a difusão de memes e virais. Outra função precípua é a da pavimentação de comunidades. Os frequentadores da biblioteca podem versar sobre os seus livros preferidos, indicar leituras presentes no acervo, gestar grupos de leitura etc.

Em busca dessa interação, a Biblioteca Nilo Peçanha, do campus João Pessoa do IFPB, também embarcou no FaceBook. Desde de 2013, o acervo mantém uma página, a qual já conta com 1200 seguidores, de outros estados, inclusive. A maioria, todavia, é composta por estudantes da própria instituição.

Thiago de Lima Silva, responsável pelo gerenciamento da página da biblioteca no FaceBook explica que o conteúdo das publicações é variado. Além de divulgar as novas aquisições de livros, filmes e periódicos, as postagens trazem atualizações da agenda cultural da cidade e indicações de reportagens de interesse do público-alvo, mormente jovem. Indicação de matérias publicadas na grande mídia repercutindo ações e êxitos de estudantes do IFPB não podem faltar. Por fim, há espaço, até mesmo, para a divulgação de ofertas de estágio em instituições públicas e privadas. As postagens mais bem-sucedidas chegam a causar uma avalanche de comentários.

Como forma de turbinar o número de seguidores da página e de manter motivados os usuários conectados, o grupo de bibliotecários da Nilo Peçanha já promoveram promoções, com distribuição de prêmios, tais como cesta natalina no fim do ano. Para concorrer, explica Thiago Silva, era preciso curtir a página e mencionar mais três pessoas para também seguirem a biblioteca na rede social.

Por mais que possa parecer sedutor se fazer presente no maior número de plataformas possível, é preciso levar em consideração que o comparecimento em uma rede social exige tempo. É sabido que o quantitativo de pessoal a serviço das bibliotecas costuma ser insuficiente. A falta de pessoal é, aliás, o maior entrave para o ingresso de muitas bibliotecas nas plataformas de redes sociais na internet. A presença em uma rede social exige atualizações contínuas e interação.

Nas dependências das bibliotecas, repousam obras-primas do pensamento humano. Muitas destas obras, aliás, foram escritas dentro de bibliotecas e ajudaram a quebrar paradigmas. Hoje, ironicamente, gestores de bibliotecas escolares precisam vencer os seus próprios paradigmas para lançarem mão de recursos como as plataformas de redes sociais na internet — apresentadas, não raro, como antagonistas das salas de leitura. Na história da humanidade, a construção de falsas dicotomias não é novidade. Em um passado longínquo, por exemplo, houve quem considerasse a palavra escrita uma antagonista da memória; hoje, não é difícil concebê-la como sua maior aliada.