Escrever com liberdade

Diários podem ser o estopim tanto para despertar o prazer da leitura quanto o da escrita

Por Jussara Saraíba | Adaptação web Tayla Carolina

No filme Escritores da Liberdade, baseado em fatos verídicos, a atriz Hilary Swank dá vida a uma inexperiente e sonhadora professora de Língua e Literatura Inglesa, Erin Gruwell, que vai lecionar para uma turma “problema” em uma escola de periferia americana.

Há uma tensão constante no ar, com latinos e negros se enfrentando, levando para a sala de aula as situações das ruas. São alunos rebeldes, desmotivados, sem esperanças, marginalizados. Para piorar, ela não encontra apoio no corpo docente nem na direção; ao invés disso, tem diante de si um universo preconceituoso e resistente.

A própria disciplina que ensina a coloca à parte do mundo de seus alunos, que têm sua “própria língua”. Como vencer essas barreiras? Obstinada, Erin não desanima e, lançando mão de métodos nada convencionais, aos poucos acaba conquistando um a um, até chegarem ao ápice do lançamento do livro Diário dos Escritores da Liberdade, publicado em 1999, com textos marcados pelas histórias de vida sofridas, mas que despertaram nos estudantes uma visão diferente de suas possibilidades e de como enxergar o outro, antes inimigo, mas com angústias e desejos tão parecidos.

Erin buscou inicialmente conhecer seus alunos, saber de seus medos, seus sonhos, seus entraves. Relacionando o que colhia aqui e ali das várias trajetórias, levou para a sala de aula um livro que chamou a atenção justamente pelo sofrimento da autora: O Diário de Anne Frank. Os horrores do Holocausto calaram fundo nas mentes daqueles jovens, e sua leitura foi o estopim para que pudessem enxergar além de suas vivências.

 

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Gente como a gente

A estratégia de Erin deu certo porque os atores envolvidos se reconheceram: a menina que, por dois anos, morou com a família em um porão, escondida dos nazistas, resolveu colocar em um caderno seu dia a dia e seus anseios, e as lutas diárias daqueles alunos para os quais ninguém mais estendia a mão.

Anne Frank era como eles, à sua maneira: tinha problemas imensos e ninguém com quem pudesse compartilhar, à exceção dos que viviam com ela naquele cubículo. Gente como eles.

Do lado oposto à tragédia, o livro Diário de um Banana, de Jeff Kinney, agradou recentemente em cheio aos adolescentes que se divertiam com a leitura e se identificavam com as situações e as emoções vividas pelo personagem principal, o garoto Greg Heffley, que também ganhou as telonas. Gente como eles.

Outro que chamou a atenção, principalmente das meninas, foi Diário da Carol, de Inês Stanisiere, o qual reúne relatos de uma menina de 11 anos que, como tantas outras, decide escrever seus relatos em uma agenda. E durante um ano inteiro registra experiências, medos, anseios, dúvidas e sonhos.

Mudanças no corpo, dificuldades de relacionamento, menstruação e beijo são alguns dos temas que dentre tantos preocupam a personagem. Gente como elas. O diário – considerado aqui como instrumento de escrita que possibilita reflexão de quem lê e de quem escreve – pode se transformar em um grande aliado para a produção de textos.

 

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Maria Tereza Cunha, em seu Do Baú ao Arquivo: Escritas de si, escritas do outro, afirma que os textos dos diários representam um tipo de “escrita ordinária”, pois relata o efêmero, o cotidiano, em que o sujeito comum/ordinário transforma-se em alguém importante e faz de suas ações e experiências diárias algo também importante.

Segundo ela, na maioria das vezes, o autor do diário é um narrador solitário que conta suas vivências e experiências para si mesmo. A história verídica apresentada no filme Escritores da Liberdade mostra a importância das características do diário apontadas por Maria Tereza Cunha, as quais referem-se à escrita ordinária do diário, onde o sujeito comum transforma-se em alguém importante, assim como suas ações e experiências transformam-se em algo também importante.

Na visão de Anna Machado, autora de O diário de leituras. A introdução de um novo instrumento na escola, a produção de um diário pode contribuir para a construção de saberes e conhecimentos mais estruturados e significativos, tomando forma de um instrumento didático-pedagógico.

Ou ainda, como explica Carlos Rodrigues Brandão em Diário de Campo – A Antropologia como alegoria, os diários podem surpreender até mesmo seu próprio autor: a escrita começa a se tornar autônoma e, dessa forma, a escrita “descompromissada” toma o lugar da escrita metodológica.

E é na relação dialógica que se tem ao escrever um diário que a inibição desaparece e surge tanto o leitor quanto o escritor. A leitura precede a escritura espontaneamente, abrindo espaço para o “eu” escrevente que, aos poucos, vai ganhando desenvoltura e se expressando com liberdade.

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa – Ed. 69