Uma conversa com Wolmer Ricardo Tavares

Wolmer Ricardo Tavares é Mestre em Educação. Docente Universitário e de Pós-Graduação. Entre seus livros lançados estão Escola Não é Depósito de Crianças - A Importância da Família na Educação dos Filhos e Gestão Pedagógica: Gerindo Escolas Para a Cidadania Crítica

Texto: Redação | Fotos: Shutterstock 123rf | Adaptação Web: Rodrigo Sodré

No seu livro Escola Não é Depósito de Crianças, o Sr. coloca que os pais transferem a responsabilidade, da educação dos filhos, para as instituições de ensino. Este problema vem se agravando desde que época? Por quê?
Difícil definir um marco, mas observando a linha do tempo foi a partir do momento em que se precisou de mais de um provedor na família. Momento em que as mulheres tiveram que se ausentar para conseguir sua independência financeira ou se tornaram a provedora dos lares, muitas vezes, abandonados pelos seus pares ou por famílias desfeitas. Nas escolas públicas, principalmente periféricas, embora muitas famílias vivam assim, elas se tornaram omissas na sua função de educar e passar valores, esquecendo-se que a família é a pedra angular para a formação cultural, social
e moral da criança.

Até que ponto compromete a formação do indivíduo?
Cabe a escola ensinar conteúdos escolares e disciplinas, entretanto, ela abraçou também os ensinamentos de valores éticos e morais muitas vezes esquecidos pelos próprios responsáveis. Estamos com uma ou duas gerações comprometidas com a ausência destes valores. Por mais que as escolas tentem preencher as lacunas deixadas pela família, nunca conseguirão substituir o afeto, o amor, o respeito e a imagem dos pais e/ou responsáveis.

A causa é grande e complexa e são muitos os alunos a serem trabalhados, o que faz com que o sistema empurre a escola na permissividade; a família fica na contramão da educação, e se acha no direito de cobrar ações que ela sequer teve capacidade de tomar em relação à educação de seus filhos; muitos destes responsáveis são contraexemplos de educadores, pois lhes faltam civilidade e respeito com o profissional que assume um dever que não lhe cabe, mas que se não o fizer, a criança será mais uma a permanecer na área de risco, sendo aliciada por oportunistas.

De que forma a escola deve intervir?
Estamos lidando com gente, e, por si só, torna-se um problema com uma variável complexa e difícil de equacionar. Entretanto, não podemos desconsiderar outras variáveis como vaidade, força política, influência familiar, economia, dentre outras que caberão ao gestor perceber e, com sua equipe intervir, sem abrir mão do apoio da família. A família é fundamental para a formação da criança como ser integral e este elo entre escola e família convergirá para uma educação que desenvolverá um educando cognoscente e protagonista.

Qual sua opinião sobre o programa Escola sem Partido?
É um movimento surgido por uma elite dominante, apoiado por uma mídia cúmplice deste sistema corrupto que quer impor uma domesticação subalterna em nossos educandos. Observando a linha do tempo, poderemos perceber que na ditadura houve uma repressão em que alguns pensadores, como Paulo Freire, se viram obrigados a se exilar e outros que ficaram ou caíram no ostracismo ou no fosso de um elevador, como aconteceu com Anísio Teixeira. Ou seja, o regime se encarregava de ceifar pensamentos subversivos e aumentar cada vez mais a massa de manobra.

Os políticos perceberam a importância em se ter um contingente cada vez maior de pessoas alienadas, despolitizadas para fazerem o que acharem melhor para eles próprios em detrimento a toda uma nação. São os verdadeiros néscios apoiados pela mídia alienadora e se esquecem que a educação em si é um ato político, além de se esquecerem também que educação é uma ação transformadora, e essa transformação vem por meio da politização e conscientização da realidade, então, este assunto de escolas não partidárias é uma forma de manipular as informações como se fazia na ditadura.

Quais os principais pontos que o levam a utilizar o termo “buraco negro da educação pública”?
Eu quis fazer uso de uma linguagem metafórica, pois o buraco negro é uma região no espaço em que nada escapa dele, nem mesmo partículas de luz, isso sem adentrar no campo da física ou astronomia, então, fiz uso de um sentido conotativo. A educação pública tem o objetivo de idiotizar seus alunos, um bom exemplo disso está sendo a reforma do Ensino Médio. O Governo Federal não tem medido esforços e tampouco dinheiro público para mostrar, através da mídia, que é a melhor saída para a educação, fazendo uso, então, de incontinências verbais baseadas em suas falácias.

Estão acabando com o Terceiro Estado que se baseia na força de seu povo a exigir equilíbrio da nação, pois, para se exigir algo, deve-se ter discernimento dos fatos, e tal reforma esterilizará sonhos e castrará as perspectivas de nossos educandos. Este buraco negro criado pela educação pública, erradicará qualquer cabeça pensante, o que acarretará em um aumento de forma exponencial da massa de manobra para que os políticos corruptos possam se perpetuar no poder e continuar a sangrar o seu povo e a macular a imagem de um país, além de reforçar que, realmente, a justiça é cega. É cega para os desmandos da elite, é cega para os políticos e severa para com o seu povo.

Faço minhas as palavras de James Farner Jr., no filme O Grande Debate, quando fala sobre desobediência civil, mas esta desobediência exige certo conhecimento. De acordo com James Farner Jr. “Santo Agostinho disse – uma lei injusta não é uma lei para todos. O que significa que eu tenho direito, até mesmo o dever de resistir com a violência ou com a desobediência civil. Você deve orar para que eu escolha a segunda.”

Dito isso, percebe-se que a educação pública tem criado o seu gado de manobra justamente para evitar a desobediência civil. Todos nossos educandos encontram-se domesticados e submissos, aceitando as Reformas Constitucionais de forma arbitrária.

Ao fazer referência ao ensino, de um modo geral, o Sr. levanta a necessidade do uso da tecnologia da informação para o desenvolvimento cognitivo e não o emburrecimento. A maioria das escolas está utilizando corretamente esta ferramenta?

Infelizmente, não. Temos na tecnologia da informação uma forte aliada para alavancar a educação de qualidade, mas esbarramos na mediocridade e na cultura de que um laboratório de informática é um ambiente para matar o tempo. Em conversa com alguns amigos que atuam em um laboratório de informática, assim como eu, é fato os professores levarem seus alunos para passar o tempo, deixando-os à vontade sem um critério ou planejamento. É uma forma de “enrolar”. O triste é que os alunos gostam de ir para jogar sem um critério. A educação se dá também de forma lúdica, mas tais professores não fazem o uso do lúdico, salvo exceções. Também temos situações de professores que fazem uso da tecnologia da informação como uma bengala, pois encontram-se despreparados.

Particularmente, já presenciei professores ou relatos de professores que faziam uso de slides e simplesmente liam o que nele estava. Não existia um planejamento e o próprio professor se mostrava totalmente despreparado quanto ao conteúdo ministrado, e quando não tinha o data show disponível, simplesmente não dava a sua aula medíocre. Era um recurso que funcionava como uma bengala e não um suporte.

Outra situação a ser considerada são de professores que ao pedirem pesquisas, acabam fazendo um fomento ao plágio, pois eles não exigem as devidas citações e tampouco a fonte da pesquisa. Não exigem ao menos uma síntese do item trabalhado, ou seja, o aluno simplesmente copia e cola sem ao menos ler o que foi entregue, e, por preguiça, o professor simplesmente lança o ponto relacionado ao conteúdo, sem ao menos pedir para que o aluno defenda suas ideias. Temos na pesquisa uma excelente ferramenta para trabalhar a autonomia de nosso educando e ela é uma das formas de se conseguir isso, o que é corroborado por Paulo Freire quando afirma que “não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino”, dito isso, precisamos aguçar a curiosidade do aluno. Pode-se afirmar que a pesquisa é uma das maneiras de reforçar a leitura e auxiliar a educação, mas por preguiça de pensar ou por falta de incentivo, hoje encontramo-nos de acordo com o NOP World Culture Score Index, na 27ª posição em um ranking de 30 países, e isso pode ser reforçado pela estatística ao afirmar que 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro. Lemos dez vezes menos que os Estados Unidos e quase a metade da Colômbia, país que lê em média 2,4 livros.

Fomentar a curiosidade do aluno é uma forma de incentivar a leitura e a autonomia pela busca do conhecimento, logo, cabe ao professor fazer o uso correto da tecnologia da informação e torná-la o seu apoio para uma educação de qualidade e nunca a sua bengala.

Ainda existe resistência de muitos educandos em utilizá-la?
Sim. Como havia dito, lidar com pessoas é difícil. A tecnologia da informação costuma tirar os profissionais de sua da zona de conforto e isso para muitos educadores é um agravante. A realidade de nossos alunos é que a maioria domina estas tecnologias, e os professores se sentem inseguros, mas isso se dá porque eles se colocaram como sabedores de tudo. Não têm a humildade em se ver como mediador e ficam se achando os senhores da situação. Cabe a nós educadores percebermos que podemos também aprender com nossos alunos, por isso, vale ressaltar as falas de Cora Coralina quando diz “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.”

Algo mais que gostaria de acrescentar?
A escola e a família precisam ser parceiras no processo de educar. Cada um com a sua função e uma ajudando a outra para que a criança cresça com valores que só a família pode ensinar e com conhecimentos que serão adquiridos na escola. É bom saber que apesar da sofrível educação pública, ainda podemos contar com professores a darem o melhor de si para que o conhecimento seja disseminado a qualquer um que seja e que tenha interesse em mudar o seu entorno, dito isso, uma outra sugestão de um outro livro de minha autoria que vem a acrescentar para uma educação de qualidade, que é Gestão Pedagógica: Gerindo Escolas para a Cidadania Crítica; nesta obra, mostro que a educação não é para ser padronizada e, tampouco deve ser limitada a um simples compêndio a ser traduzido em plano de ação sem uma visão holística. Essa visão se faz mediante uma gestão pedagógica e escolar. Alguns gestores, por desconhecerem conceitos intrínsecos nesta obra, deixam de oferecer algo a mais para alavancar uma educação que leve o educando a um protagonismo, fazendo com que a criticidade seja um norte para interagir e mudar todo o entorno ao qual o educando se encontra inserido.

Para uma minoria elitizada, a educação não se limita apenas a um apanhado de conteúdos considerados essenciais para a vida do educando. Por isso, cabe ao gestor não só conhecer, mas também aplicar conceitos, como teoria de Gestalt, inteligência emocional, letramento, crowdsourcing, sensemaking, educação social, socialização, gestão de pessoas, dentre outros, de mesma relevância. Diante desse novo conhecimento, os gestores poderão se sentir mais confiantes para direcionar seus educandos a uma educação para a vida.