Entrevista com Tatiana Bolivar Lebedeff

Tatiana Bolivar é professora da Área de Libras do Centro de Letras e Comunicação da Universidade Federal de Pelotas, Organizadora do livro Letramento Visual e Surdez

Por redação | Adaptação web: Tayla Carolina

De que forma o letramento visual contribuí nas práticas pedagógicas no campo da surdez?

Antes de falarmos de Letramento Visual temos que compreender o conceito de Experiência Visual. Karin Strobel, que é uma pesquisadora surda brasileira, afirma que a experiência visual é o primeiro artefato da cultura surda.

Isto significa que é mais do que usar a visão para a comunicação, significa usar meios diferentes dos ouvintes, ou seja, meios visuais, para interagir no mundo, para compreender e interpretar o mundo.

Deste modo, podemos compreender os surdos como sujeitos visuais. George Veditz, um dos mais destacados presidentes da Associação Nacional de Surdos dos Estados Unidos já dizia, em 1910, que os surdos eram o “povo do olho”. A relação entre experiência visual e letramento visual está no fato de que é a experiência visual que precisa basilar as propostas educacionais para surdos.

No caso, propostas educacionais que sejam pautadas pelo Letramento Visual, ou seja, pelo viés de uma área de estudo que lida com o que pode ser visto e como se pode interpretar o que é visto. Vários autores discutem o fato de que a imagem, nos livros didáticos e, nas salas de aula, aparecem muito como “anexo”, “enfeite”, “exemplo” e não como texto propriamente dito.

A imagem pode ser texto e é essa premissa que pode ser melhor explorada em salas de aula com surdos. Isso não significa prescindir da palavra escrita, pelo contrário, pois estamos falando de sujeitos e práticas bilíngues. Mas, a imagem e, a experiência visual, precisam estar mais presentes e com status diferenciado em sala de aula.

É preciso lembrar, também, que quando se utiliza o conceito de Letramento, existe a compreensão de que existe uma prática social. Dou um pequeno exemplo: uma vez uma professora de artes da escola em que eu trabalhava reclamou que os surdos não sabiam produzir histórias em quadrinhos.

 

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Ela não compreendia por que os alunos tinham dificuldades de interpretar e de produzir seus próprios quadrinhos, já que era a compreensão e produção de imagens. Ora, a leitura de histórias em quadrinhos requer práticas sociais.

Existe toda uma semântica interna que precisa ser desvendada na prática compartilhada. O que significa um balão em formato de nuvem? Ou, pequenas nuvens atrás de um personagem? São significados compartilhados durante uma leitura em conjunto, práticas essas que são muito raras nas famílias com crianças surdas, pois são práticas que requerem uma língua compartilhada, ou seja, a Língua de Sinais.

Outra questão que deve ser levantada é que o Letramento Visual é importante não apenas para os surdos, mas os ouvintes também se beneficiam muito quando práticas de leitura e compreensão de imagens são utilizadas em sala de aula. Dou outro exemplo, de um professor de História de uma Escola Pública de Ensino Médio que tinha apenas um aluno surdo incluído.

Este professor, a cada novo conteúdo, contextualizava tempos e espaços com as imagens disponíveis na internet. Podiam ser fotografias de cenas de filmes, pinturas expostas em museus, imagens de esculturas, enfim, recursos que poderiam ser inseridos em uma apresentação Power-Point.

Ao final do primeiro ano que ele lecionou para a turma, os alunos ouvintes agradeceram a mudança de estratégia de ensino, relataram que nunca imaginaram que História poderia ser uma disciplina interessante e que aprenderam muito com a utilização intensiva de imagens.

Quando converso com professores mostro, inicialmente, um vídeo curtinho que está disponível no YouTube, que mostra glóbulos brancos perseguindo e atacando uma bactéria. Com a tecnologia que temos hoje em dia, não há o que não possa ser visto.

O que são Deafspace e SignWriting? São bem aplicadosno Brasil?

Deafspace é um conceito maravilhoso e que, por enquanto, ainda não chegou no Brasil. Eu, pelo menos, desconheço. Este conceito foi desenvolvido na Universidade de Gallaudet em Washington, nos Estados Unidos. Gallaudet é uma Universidade Bilíngue, as aulas são todas dadas em Língua de Sinais por professores bilíngues ou com o apoio de Tradutores Intérpretes de Língua de Sinais.

Os arquitetos de Gallaudet compreenderam que o espaço surdo é um espaço diferenciado do espaço ouvinte. Nesta proposta paredes de tijolos são substituídas por vidros, janelas, e, até, tijolos de vidros. Corredores são ampliados e áreas de convivência são abertas e visíveis pra os transeuntes.

O espaço dentro de sala de aula, destinado a cada aluno e professores, também é diferenciado, pois leva em consideração o espaço de enunciação da Língua de Sinais. No livro, temos o capítulo de Hansel Bauman, arquiteto de Gallaudet e um dos desenvolvedores do Deafspace.

Ficamos muito contentes em tê-lo no livro, pois é o primeiro texto dele publicado no Brasil. O conceito de Deafspace pode ser utilizado tanto para a construção de novas escolas como para a reforma ou remodelação de escolas já construídas.

 

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Em seu capítulo Bauman dá várias explicações e, exemplos, de como o Deafspace foi desenvolvido e aplicado em Gallaudet. Com relação ao SignWriting, é importante destacar que os cursos de Bacharelado e Licenciatura em Letras Libras, no Brasil, ofertam disciplinas de SignWriting.

Sobre o uso de SignWriting em escolas, posso citar o exemplo da Escola Estadual de Surdos Reinaldo Cóser, em Santa Maria, no RS. Nesta escola as crianças são imersas em atividades de Letramento com SignWriting. É importante esclarecer que o SignWriting é um sistema de escrita para as Línguas de Sinais e pode ser adaptado para qualquer Língua de Sinais.

Parte do pressuposto que o movimento pode ser registrado e, esse registro, é o de um movimento com significado linguístico. A hipótese de escrita, de registro, da Língua de Sinais desenvolve, nas crianças, a compreensão de que “o que eu penso e enuncio pode ser registrado”.

Este registro pode ser em papel ou computador e abre as portas para a compreensão de que a outra língua, a oral escrita, é o registro de um pensamento e de um enunciado de alguém que utiliza aquela outra língua. Possibilita a compreensão de bilinguismo, possibilita a compreensão do porquê elas devem escrever uma língua que elas não ouvem.

 

Para ler essa entrevista na íntegra, compre a revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa – Ed. 68