Então: Palavra de Situação

Uma questão semântica de oralidade

Fonte: Leo Ricino* | Adaptação web: Tayla Carolina

Considerações iniciais

Todos sabemos e muito bem: língua é o conjunto de palavras e expressões usadas por um povo para a sua comunicação. E não me canso de afirmar: a língua, as letras e os números são os principais instrumentos que proporcionaram ao Homem os verdadeiros recursos intelectuais para que ele atingisse o atual estágio de cultura e tecnologia.

Esses três elementos, língua, letra e número, são os grandes e verdadeiros diferenciais do Homem em relação aos demais animais. A língua é que propicia ao ser humano a expressão plena de sua linguagem, portanto, de suas ideias, emoções, sentimentos e racionalidade.

Morfologia e sintaxe — sempre de mãos dadas

As palavras e expressões que compõem uma língua requerem uma organização sintática, para que a comunicação se possa fazer e também para evitar que o caos linguístico-comunicacional não se instale. As palavras isoladas em suas classes são estanques e, praticamente, imprestáveis. Manipuladas ou, se preferirem, manuseadas, para formar frases se tornam sintaxe e transmitem mensagens, geram sentido. E todas as palavras e expressões são classificadas de acordo com as finalidades para as quais foram criadas. Se uma palavra serve para conectar outras palavras, ela é classificada, por exemplo, como preposição, conjunção, pronome relativo e até verbo de ligação; se serve para qualificar e distinguir um substantivo de outro de mesma espécie, então ela é um adjetivo. E assim sucessivamente.

Portanto, seria fácil para a gramática classificar todas as palavras de uma determinada língua e tudo estaria resolvido. Seria!?

 

A importância semântica das Locuções e Expressões

 

As rebeldes dos reinos das palavras

Acontece, porém, que uma série de palavrinhas, rebeldes, se negam a se enquadrar nesta ou naquela classificação. Quando se diz, por exemplo, “Só ela esteve aqui.”, como se poderia classificar a palavrinha Só? Seria um advérbio? Uma preposição? Talvez um adjetivo, equivalente a sozinho? Não, não há como classificá-la dentro do rigor das dez classes gramaticais.

Por isso, a gramática normativa teve de buscar uma solução fora do seu próprio rigor e apelou à Semântica. Só, no exemplo dado, é meramente uma palavrinha denotativa de exclusão.

Exclusão? De quê? Quem ela exclui? “Só ela esteve aqui”. Essa tão pequena palavrinha exclui, semanticamente, qualquer pessoa ou elemento que não seja esse “ela”. A força está com o “Só”. No entanto, há quem queira ver esse “Só” dessa frase como palavra de inclusão, ao incluir exclusivamente “ela” na ação verbal. Fico com a exclusão mesmo.

Palavras denotativas e então

O mesmo fenômeno ocorre com uma série de palavrinhas, que mais denotam alguma coisa do que se prestam a alguma classificação de acordo com suas finalidades.

Assim, há palavras que denotam inclusão (também, até, mesmo, etc.), exclusão (só, somente, apenas, etc.), situação (o MAS em expressões como “Mas que golaço!”, então, etc.), retificação (aliás, isto é, ou melhor, etc.), designação (eis), realce e expletivo (é que, só, como em “Eu é que mando aqui!” “Veja só que coisa esquisita!”) e explicação (ou seja, isto é, a saber, etc.).

Neste artigo, escolhi a palavra ENTÃO, uma das mais usadas pelos falantes em geral da nossa língua, mas que com certeza não se enquadra numa das nossas dez classes gramaticais.

 

Uma aula de redação

 

ENTÃO — UMA PALAVRA DENOTATIVA DE SITUAÇÃO

Se analisarmos alguns dos usos da palavra ENTÃO, vamos concluir que ela é usada nas mais diversas situações, para as quais, aliás, ela chega a ser tão necessária, quase indispensável, como uma espécie de ato de fala.

A seguir colocarei uma série de situações em que a palavra ENTÃO aparece e dá todos os encaminhamentos necessários ao ato de fala, à pequena cena instaurada:

a) Faça isso então!
b) Então, você resolveu a questão?
c) E então, tudo bem?
d) Você fez a prova? E então?
e) Então ela resolveu sair e desafiar a todos.
f) Então, é isso que você quer?
g) Eu posso entrar então?
h) Então ela encaminhou os papéis pedidos.
i) Pegou-a então e a levou para casa.
j) Então, depois do jogo, resolveram brigar.
k) Por que então fizeram isso?

Nas sentenças acima, há vários casos em que a palavra ENTÃO foge ao rigor da classificação gramatical e se atira com fervor ao campo da semântica. É o uso semântico, às vezes até estilístico, que vai nortear o emprego dessa palavra não classificável com facilidade pela gramática. Melhor ainda, trata-se mesmo de uma palavra de situação,
pois seu uso parece muito familiar ao uso oral, ou, se escrita, principalmente nas falas que representam diálogo.

Por exemplo, das 11 sentenças acima, somente a e), “Faça isso então!”, a h), “Então ela encaminhou os papéis pedidos”, a i), “Pegou-a então e a levou para casa”, e a j), “Então, depois do jogo, resolveram brigar”, poderiam também ser usadas fora de um diálogo, mas continuam expressando situação.

 

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As situações expressas pelas frases

Na primeira, a) (Faça isso então!), o ENTÃO passa a ideia de conclusão, dependendo de um contexto, conforme ocorre, por exemplo, num diálogo como “— Essa é a melhor solução para nós todos! – Faça isso então!”. O ENTÃO aí indica uma conclusão, como se disséssemos PORTANTO, LOGO, POIS. Porém, ele não é uma conjunção conclusiva, visto que não é, na frase, elemento conector. Apenas indica uma situação e, portanto, atua mais semanticamente do que sintaticamente.

Já na sentença b) (Então, você resolveu a questão?), o ENTÃO é outro elemento de situação, correspondente ao E AÍ, usado para que o interlocutor possa esclarecer ao locutor o resultado de uma situação conhecida pelos dois. Não há como classificá-lo gramaticalmente, como dá para fazer com todas as demais palavras da sentença.

E, embora pareça igual ao uso da sentença seguinte, c) (E então, tudo bem?), há uma diferença palpável. No caso b), a situação era conhecida pelos dois interlocutores. Já em c), o ENTÃO introduz uma situação de curiosidade do locutor em relação à vida do interlocutor, ou até pode ser meramente uma frase fática, verificadora de canal. Não há conhecimento prévio ou comum. Também não dá para classificá-lo gramaticalmente. Aliás, nessa frase, o ENTÃO poderia ser substituído pelo AÍ, sem maiores prejuízos para a situação expressa.

Passemos à sentença d) (Você fez a prova? E então?), na qual o locutor também tenta arrancar do interlocutor um conhecimento só pertencente a este. É uma situação de curiosidade, de solidariedade, a necessidade de compartilhar um saber para dar uma sequência, quer de efusão, quer de apoio. O ENTÃO poderia ser substituído pelo DAÍ, sem perda também para a continuação da situação buscada.

Na sentença e) (Então ela resolveu sair e desafiar a todos.), temos um emprego semântico do ENTÃO como elemento de consequência. E é, como vimos, das poucas frases que podem servir à escrita, independente de um diálogo. Esse ENTÃO introduz uma consequência cuja causa está na parte anterior. A frase iniciada pelo ENTÃO só tem lógica se
antes veio qualquer coisa parecida com “Ela foi proibida de continuar seu trabalho, exigiram dela uma série de condições que ela não poderia cumprir” ou algo semelhante, que funcionaria como causa da consequência expressa. Em nenhum dos casos expressos até aqui se conseguiu classificar gramaticalmente o ENTÃO, cujo emprego até agora foi rigorosamente semântico ou estilístico, situacional.

 

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Se compararmos a f) (Então, é isso que você quer?) com a c) (Então, tudo bem?), verificaremos que a semelhança é apenas aparente. Enquanto na c) só se quer satisfazer uma curiosidade, ou até é meramente uma frase fática, na f) realmente o locutor quer saber se, por exemplo, o interlocutor tomou uma decisão, se decidiu por alguma coisa. Claro que aí também se poderia imaginar uma situação de desprezo, reforçada pela palavra neutra isso (aqui igual a porcaria, bobagem, etc.). Nas duas situações, também não há possibilidade de classificar-se gramaticalmente o ENTÃO.

Já em g) (Eu posso entrar então?), o emprego desse ENTÃO também é oral e sua carga semântica indica que o locutor ouviu alguma orientação, ou alguma reprimenda, e solicita autorização para entrar. Também pode passar a ideia de que entre os locutores tudo ficou acertado e, por consequência, o locutor já teria o direito de entrar. De novo, o mesmo problema: como classificar o ENTÃO gramaticalmente?

Na sentença h) (Então ela encaminhou os papéis pedidos.), o ENTÃO passa aí algumas ideias: APÓS ISSO, POR ISSO, A PARTIR DAÍ. De qualquer forma, ficam mais fortes no caso as ideias de tempo ou de causa. Pode até dar a ideia de um tempo mais reforçado, talvez excludente: SÓ DEPOIS DISSO. Também não é uma palavra classificável
gramaticalmente, ainda que a ideia possa ser típica de um advérbio. Como eu disse antes, é uma sentença que caberia também na escrita e não só na fala, como a maioria das outras.  Não é muito diferente a sentença seguinte, i (Pegou-a então e a levou para casa.). Também ficamos com a sensação de tempo: APÓS ISSO, A PARTIR DAÍ, ou com a ideia de causa: POR CAUSA DISSO.

Já na sentença j) (Então, depois do jogo, resolveram brigar.), o ENTÃO passa a ideia simples de denotador de situação, equivalente ao AÍ. Mas temos de aceitar a ideia de tempo também nessa sentença, o que reforça a expressão adverbial anterior (Depois do jogo).

O uso do ENTÃO é tão eclético que as sentenças acabam se misturando, se confundindo. Na última sentença, k) (Por que então fizeram isso?), não se pode descartar, semanticamente, o uso do ENTÃO como mero expletivo, caso em que a sentença ficaria assim: Por que fizeram isso? Mas se alguém afirmar que se trata de um elemento que denota a razão, o motivo, também teremos de aceitar: Por que motivo fizeram isso? Mas aceitá-lo como expletivo ou como equivalente do substantivo MOTIVO é perder a beleza expressiva da frase original, é tirar dela uma carga semântica de indignação, de inconcebilidade, de incompreensão. É tirar dela, enfim, a carga atitudinal.

Considerações finais

Há belezas na língua, principalmente na oralidade, que seria uma perda muito grande querer enquadrá-las no rigor de regras gramaticais. O melhor é aceitá-las, entendê-las, vivê-las e senti-las.

Mesmo porque, queiramos ou não, sejamos ou não partidários dos rigores gramaticais, sabemos que a fala é a mais lídima manifestação da linguagem, por ser acompanhada de expressões faciais, meneios de cabeça, dedos e mãos se movimentando ao som da oralidade, os olhos confirmando ou negando o que a boca está falando, enfim, fala é um mundo semovente.

Já quando usamos a escrita é que nos colocamos mais freios, temos de escolher com mais cuidado as palavras capazes de expressar aquilo que realmente queremos dizer. É outro mundo, bem diferente do mundo da fala. Os dois são belos, prestimosos e, mais que tudo, indispensáveis para os seres humanos.

 

 

*Leo Ricino é Professor na FECAP — Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado