Engajamento na sala de aula

Estratégias pedagógicas inspiradas em Paulo Freire se apresentam eficazes para a produção de interesse dos novos alunos.

Por Márcio Scarpellini Vieira / Adaptação Web Rachel de Brito

PAULO FREIRE ENGAJAMENTO EM SALA DE AULA

Uma das definições de Paulo Freire (educador, pedagogo e filósofo brasileiro) para ensino pode nos dar um importante caminho para respondermos à indisciplina e ao desinteresse em sala de aula: a falta de engajamento por parte dos alunos. Friso “por parte dos alunos” partindo do pressuposto de que quem ensina encontra-se engajado e motivado; tema que trataremos em outra oportunidade!

Ao contrário do significado simplista da palavra “engajamento” em português, que parece restringir seu alcance ao ato de coletar indivíduos para um fim ou objetivo específico, em inglês encontramos seu sinônimo “engagement”, que pode significar “noivado”, “compromisso”, “promessa de casamento”, tanto é que o anel de noivado, em inglês, chama-se “engagement rings” (anéis de compromisso).

Etimologicamente, a palavra compromisso trata de uma promessa tomada em conjunto, ou seja, uma intencionalidade firmada por no mínimo duas partes, com vista a uma conquista que trará um benefício mútuo. Neste sentido, o termo “engajamento” parece mais amplo, mais profundo, mais envolvente, mais comprometedor.

É evidente que um compromisso só pode ser firmado se ambas as partes estiverem em comum acordo quanto à relevância do objeto ou conquista sobre o qual se está estabelecendo este compromisso. Sabemos que, a cada dia, o aluno enxerga de forma mais difusa a relevância e importância dos conteúdos ensinados pela escola, o que faz com que ele não se comprometa com os mesmos objetivos do professor e da própria escola. Assim, fica claro o motivo pelo qual o nível de engajamento na sala de aula é tão baixo.

Não é apenas uma questão de didática, ou até cultural, mas é uma questão bem mais profunda, uma questão que tangencia o próprio conteúdo a ser ensinado e a compreensão do motivo de estudar este conteúdo. Sem tratarmos do conteúdo, de sua intencionalidade política ou social, visto que tais fatores extrapolam o dia a dia da sala de aula, penso que é de importância vital discorrermos, de forma prática, como podemos aproximar o aprendiz do aprendizado.

É linda a lembrança da atividade do pedagogo na Grécia Antiga, que nada mais era que do que conduzir a criança ao PAEDAGOGIUM, para ali de fato aprenderem. Em tempos em que o conhecimento não é mais propriedade daqueles que detêm fundos o bastante para investir o equivalente ao valor de um automóvel popular em uma renomada enciclopédia internacional, mas está amplamente disponível a quem procurar na internet, por exemplo, o papel do ensinante é muito mais aquele que o mestre Rubem Alves brilhantemente definiu como “professor de espanto” do que o de detentor máximo de uma cultura ou conhecimento inalcançável.

ESPAÇO SEGURO

Posto isso, quero apresentar algumas sugestões sobre como promover o tal “engagement”.

Produzir no aluno o “gosto pelo saber”, expressão redundante, já que sabor e saber são irmãos! Você já deve ter tido o enorme prazer de receber um aluno no corredor da escola a perguntar-lhe algo que você não ensinou, sobre um tema abordado em sala de aula. Mais do que isso, receber um aluno que aplicou na prática um conhecimento obtido em sala de aula é recompensador e faz valer a pena todo o esforço docente.

A primeira sugestão para promover um engajamento produtivo em sala de aula evidentemente não passa pela força ou pela imposição, mas, sim, pela empatia e sua consequente melhora na qualidade da comunicação entre o professor e o aluno.

Devemos (nós, professores) trazer o aluno para o mesmo compromisso, para o mesmo objetivo, para o mesmo lado, para a mesma trincheira! Não há mais espaço para aluno versus professor, mas há que se construir um aluno plus professor. Apenas com um objetivo claro definido, um objetivo que traga o entendimento sobre o objeto a ser aprendido, e o porquê de aprendê-lo, haverá um espaço seguro que garantirá a referida “possibilidade para a produção e construção” do conhecimento, como propôs Paulo Freire.

Desse ponto fica evidenciada a necessidade da tangibilidade do objeto a ser conhecido para o aluno, associando teoria e prática e respondendo ao tão repetido questionamento: “para que vou aprender isto?”. Outra sugestão é voltarmos os nossos olhos para o ensino tradicional indígena, no qual o aprendiz nunca deixa de aprender e, quando passa a saber, nunca deixa de ensinar.

O processo de distribuição tira dos aprendizes a possibilidade de ensinar os colegas que ainda não aprenderam, sejam estes da mesma idade ou mais novos. Essa forma de aprendizagem é uma das mais naturais e eficazes, bastando observarmos a velocidade e efetividade da aprendizagem informal que se dá entre as crianças e adolescentes em seus momentos de diversão (não eletrônica, evidentemente!).

Quando um aluno de idade mais avançada ensina um aluno mais jovem, ou que ainda não tenha se apropriado de dado conhecimento, desenvolve um senso de responsabilidade e autonomia, ao passo que o aluno que está a aprender neste processo desenvolve um senso de pertencimento e possibilidade de alcançar um conhecimento que alguém “do mesmo tipo que ele” já alcançou.

Assim, promover estudos em dupla ou um programa de tutoria entre alunos do Ensino Médio e Ensino Fundamental, por exemplo, pode ser uma excelente iniciativa na busca pelo engajamento.

Para ler esta matéria na íntegra, adquira já a edição 70 da revista Conhecimento Prático: Língua Portuguesa

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