É nóis na fita!

Linguagem do funk desce o morro, ultrapassa os limites da comunidade e invade escolas tanto da periferia quanto elitizadas

Por Redação | Adaptação web Tayla Carolina

Já vai longe a época em que os versos sincopados e contagiantes do Rap da Felicidade, de autoria de MC Cidinho e MC Doca, imortalizados na voz da dupla Claudinho e Buchecha, ganharam a simpatia inicialmente do Rio Zona Sul na mesma proporção que agradavam aos moradores das comunidades.

A letra, embora tenha no título o termo rap é, na verdade, um funk ao melhor estilo carioca e sintetiza, em seus versos, o jeito de viver e de se expressar daquela população. Das ruas de Copacabana aos rincões do Brasil foi um passo, ou melhor, foram vários passinhos, como é intitulada a coreografia dos funkeiros.

Mas ainda se falava um português mais próximo da norma-padrão. Os versos dos MCs não continham então palavras de baixo calão ou gírias incompreensíveis para a maioria dos docentes.

Eu só quero é ser feliz
Andar tranquilamente
na favela onde eu nasci, é
E poder me orgulhar
E ter a consciência que o
pobre tem seu lugar

O próprio termo funk é uma contribuição ao nosso idioma. De origem americana e tendo James Brown como seu criador e maior divulgador, a música “de preto”, como preferem os amantes do hip-hop, desembarcou por aqui no final dos anos 1980. Em São Paulo, chegou um pouco mais tarde e construiu/desconstruiu falares paulistanos.

Ela fez um charme pra colar
É difícil, mas não quer negar
É focada no trampo, no estudo
E na rua ela para tudo
Chega crazy e dorme no sofá
As amigas foram convidar
Aí que o baguio fica bom
É o Perera, é o beat, é o som
Quando essa louca embriagar
Quer só tumultuar
Fica batendo a *** e xaxaxa
Faz os vagabundos delirar
E as tiriça ficar
Sem saber o que fazer quando ela passar

A letra de Os Maloca, do MC Livinho, já mostra como caminha a nossa língua. Uma das maiores características dessas canções está na quase total ausência de concordância verbal, como pode ser observado na música. E esse jeito de falar e escrever vem influenciando estudantes dos quatro cantos do País.

Frases como “Nóis vai mais tarde”, a supressão do “r” no final dos verbos (“Eu vou ‘come’ e depois nóis abala”), além de outras construções linguísticas, invadiram lares e salas de aula e estão deixando os professores de cabelo em pé.

Esses mestres constatam que os alunos confundem fala e escrita, passando para o texto palavras de uma forma que nunca viram, como “cauma” (calma), “sidabem” (se dar bem) e por aí afora.

 

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