Comunicação não verbal! Será isso possível?

A linguagem e suas mil e uma formas de se expressar

Texto: Leo Ricino | Fotos: 123rf | Adaptação Web: Rodrigo Sodré

CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Há palavras e expressões que se consagram, sem necessariamente dizerem o que se pensa. No lar, por exemplo, dificilmente se usa palha de aço; todos querem bom-bril. No escritório, dificilmente se pede uma cópia; pede-se uma xérox.

Ora, tanto bom-bril como xérox são marcas que se impuseram espontaneamente ao mercado e ninguém contesta. Xérox, por exemplo, é um processo de cópia seca, oposta à antiga fotocópia,
que passava num líquido para reproduzir o copiado.

Já outras palavras vão desaparecendo quando representam tecnologia superada. Por exemplo, quarenta anos atrás datilografava-se um documento, já que se usava a máquina de escrever. “Dactulos”, grego, é dedo da mão, e “grafia”, também de origem grega, é escrever, ou seja, datilografar é escrever com os dedos.

Com o advento do computador, a datilografia desapareceu e cedeu lugar para a digitação. “Digitus”, em latim, é dedo, o uso dos dedos. Ou seja, substituímos uma expressão grega por outra latina, para dizer a mesma coisa: teclar.

COMUNICAÇÃO VERBAL
Ouço e leio muito o emprego dessa expressão COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL, quando querem referir-se aos gestos, às expressões faciais e às mímicas que muitas e muitas vezes fazemos
para nossa comunicação. Entendo que é uma simplificação, para expressar basicamente que não se trata de fala ou escrita, mas…, exclusivamente em relação à comunicação humana, defendo
uma tese: creio ser impossível que possa ocorrer uma “comunicação não verbal”. Somos incapazes de expressar ideias e sentimentos sem usar as palavras. Nada processamos no cérebro sem que todo o percurso seja sempre traduzido por palavras, quer quando recebemos mensagens, quer quando expelimos mensagens.

Para buscar elementos comprobatórios dessa tese, peguemos um dicionário comum mesmo, ou seja, desses que usamos para ver o significado de palavras, como o Houaiss e o Aurélio, e vejamos o significado de algumas palavras fundamentais para o que pretendo defender.

VERBO: o Dicionário Eletrônico Houaiss diz que é “1. palavra, discurso” e informa que etimologicamente vem do latim ‘verbum,i’, ‘palavra, vocábulo’. Conclusão: verbo é palavra.

PALAVRA: o mesmo dicionário diz, dentre tantas outras significações, que é “1. unidade da língua escrita, situada entre dois espaços em branco, ou entre espaço em branco e sinal de pontuação”. E, como conceito 2, diz: “unidade pertencente a uma das grandes classes gramaticais, como substantivo, verbo, adjetivo etc., não levando em conta as modificações que nela ocorrem nas línguas flexionais, e sim, somente, o significado; vocábulo”. E etimologicamente diz que vem do “lat. parabðla, ae, (pelo vulg.), empr. ao gr…”

VOCÁBULO: Houaiss diz: 1 “Rubrica: gramática, linguística. m.q. palavra (‘unidade pertencente’, ‘unidade mínima’) 2 Rubrica: gramática. cada uma das unidades átonas do léxico (preposições, conjunções, artigos, pronomes oblíquos) que, não podendo constituir um enunciado sozinhas, se agregam a outra formando um vocábulo fonético; palavra”.

OUTROS CONCEITOS IMPORTANTES

Além dos conceitos acima, para reforçar a tese, é preciso destacar outros.
FALA: um de seus sentidos é que fala é o meio, um veículo, para expressar a língua. Em palavras mais práticas, pode-se dizer que é o uso oral da linguagem. É pelos discursos advindos da fala que formamos nossos relacionamentos pessoais.
LÍNGUA: também num conceito bem objetivo, pode-se dizer que é o conjunto das palavras e expressões, de forma sistematizada, usadas por um povo para a sua comunicação. A língua é um código aberto.
LINGUAGEM: é capacidade humana de exteriorizar ideias e sentimentos. Para tal, a linguagem carece de um código, que é a língua.
A LINGUAGEM E SEUS MEIOS DE EXPRESSÃO
Se, como definido acima, a linguagem é uma capacidade humana de exteriorizar ideias e sentimentos, ela precisa de um meio para atingir esse exterior. Basicamente são quatro esses meios:
• ela se utiliza da fala para expressar-se oralmente (boca vem do latim os, oris). Portanto, fala é o uso oral da linguagem;
• também se utiliza da escrita para expressar-se graficamente. Portanto, escrita é o uso gráfico da linguagem;
• a mímica, isto é, a linguagem se utiliza dos gestos em geral para expressar-se, como na escrita, visualmente, e
• utiliza-se da realidade virtual, naquilo que se pode denominar ‘internetês’, um conceito nada científico, mas nos últimos trinta a quarenta anos extremamente real em nosso cotidiano. O “internetês” parece escrita, mas não é escrita; parece fala, mas não é fala. Ou seja, é uma modalidade própria.
CONCLUINDO
Um dos exercícios que solicito a meus alunos é tentar pensar o que quiserem ou sobre o que quiserem sem usar palavra. Solicito a você, leitor, que tente fazer a mesma coisa. Escolha algo e pense sobre ele sem usar palavra. Tentou? Conseguiu? Eu nunca consegui.
Assim, reitero: nada em nossa comunicação, seja externamente, seja com nós mesmos, nos momentos de solidão ou reflexão, dispensa a palavra. Só conseguimos organizar ideias, pensamentos e sentimentos usando palavras. Diante duma bela pintura, por exemplo, processar nossa admiração só é possível usando palavras.
Se assim é, como uma comunicação poderia ser não verbal, já que verbo é palavra!? Na comunicação gestual, o comunicador usa os gestos traduzidos por palavras, e o destinatário transforma a mensagem gestual através do verbo, ou seja, da palavra. Portanto, creio ser difícil que exista comunicação humana não verbal.
Creio que aquilo a que chamam de comunicação não verbal de fato queira dizer comunicação não oral ou não escrita, ou ainda não “internetês”. Em outras palavras: a linguagem humana só é transmitida e recebida, em qualquer situação, através do código formado por palavras, o que nos faz entender que qualquer comunicação humana seja VERBAL. Mas, repito, entendo a simplificação do nome COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL, para distinguir da comunicação falada ou escrita, ou ambas. E aceito com fervor qualquer tese contrária.