Como usar ponto e vírgula?

Entender o emprego de certos sinais de pontuação com base exclusiva no critério da divisão melódica da frase segue ao revés de uma questão que é eminentemente sintática, não fonética

Por Roberto Sarmento Lima* | Adaptação web Tayla Carolina

Não sei se já lhes disse por aqui, mas aprendi a usar o ponto e vírgula com aquele escritor, como é mesmo o nome dele, é até muito conhecido, ah, sim, o Joaquim Maria, como não lembrar? Tinha eu uns 12 anos, quando me
caiu nas mãos, quase por acaso, o romance Helena, uma das primeiras obras desse autor.

Confesso que — embora muito novo, ou porque muito novo, nem sei dizer qual das duas conjunções cabe melhor nesse argumento, se uma concessiva ou uma causal — o livro não me pegou de jeito. Mas li-o todo, pois não quis desistir da empreitada na qual queria me iniciar.

No fim, achei o livro desinteressante. Eu, naquela tenra idade, pensava, muito ingenuamente, claro, que o texto só seria bom se deliciasse o leitor com uma história empolgante, o que não me pareceu que fosse. O caso é que eu não achei o romance isso tudo.

Hoje eu sei que há livros que, apesar de contarem uma boa história, são péssimos exemplos de realização literária. História — ruim ou excelente — é, no campo dos julgamentos críticos, o que menos conta; afinal, o que conta de verdade é o enredo, como ele foi montado.

Indecisão terminológica

Pois bem, algo, no entanto, chamou minha atenção ao ler Helena, esse livrinho do Assis (não sei se já disse o nome do autor, disse?). Não foi nenhuma personagem (todas chatas e insossas, avaliei na ocasião); também não foi nenhuma passagem da história em especial (todas mornas e previsíveis); não foi nenhuma descrição de natureza,
um pedaço de quintal que fosse (esse autor, o Assis, também conhecido como Joaquim Maria de Assis, não curte isso).

Foi — pasmem! — o uso pródigo do sinal de pontuação que atende pelo nome pomposo de ponto e vírgula. E não é que foi com o Joaquim Maria de Assis que aprendi a usar o ponto e vírgula, desde então, e não desaprendi mais?
Não foi com nenhum professor que tive em sala de aula; não foi com nenhum gramático, mesmo esses bem
sabidos; não foi com nenhum deles.

Foi esse autor lá das bandas do Rio de Janeiro, lá no já longínquo século XIX, que, tacitamente, sem querer, me ensinou a usar com precisão o tal sinal.

E digo mais: depois de ler a última página do romance Helena, senti-me instigado a relê-lo, ato contínuo: primeiro, porque percebi, em praticamente todas as páginas, o uso maciço desse sinal de pontuação, cuja frequência me intrigou bastante; segundo, porque, propondo-me conhecer as razões do seu uso, quis fixar a lição, deduzindo as regras.

Ah, sim, literatura também serve para essas coisas. Lendo, aprende-se muito. Lendo, aprende-se, por exemplo, que, no século XIX, não mais nos dias atuais, uma jovem para ser bem recebida na sociedade devia saber tocar piano, falar francês, um pouco de inglês, desenhar, costurar, bordar…

Está tudo lá, nesse livro publicado em 1876, vade retro! Helena, fazendo-se passar por filha natural do conselheiro
Vale, filha “como se de seu matrimônio fosse”, não fazia feio e não envergonhava ninguém, ao menos no campo das atitudes e comportamento, chegando a encantar a todos daquela casa, que parecia ser sua também, se não por sentimento, ao menos por força da herança na qual a heroína pôs o olho.

Mas o que interessa sobremodo a este artigo é o assunto que destaquei desde o início e de que o meu gosto por impressões literárias quase fez desviar-se: o uso do ponto e vírgula.

 

→ “Senão” ou “se não”?

 

Apresento aqui, para começo de discussão, duas — vou logo avisando, para que ninguém caia de costas — infrutíferas definições de emprego do ponto e vírgula extraídas de gramáticas bastante conhecidas. Uma definição vem de uma gramática conservadora, é verdade, mas de qualquer modo competente nas suas lições: é a Gramática Metódica da Língua Portuguesa, de Napoleão Mendes de Almeida, na sua 44ª edição, de 1999.

Outra é a Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, na sua 16ª edição, de 1977, de Domingos Paschoal Cegalla, livro igualmente competente e digno de estar em qualquer estante. Acontece, entretanto, que ambos os autores dão uma definição de ponto e vírgula que está longe de resolver o problema do seu emprego e de auxiliar a quem precise desse ensinamento em mais de algum momento na vida.

O que diz Napoleão Mendes de Almeida? Na minha edição, na página 575, lê-se o seguinte:

“Tem o ponto e vírgula mais força que a vírgula e menos que o ponto final.”

Mais adiante, acrescenta o gramático, prolongando o martírio de quem precisa aprender a usar o sinal: “A vírgula separa conceitos, ideias, frases; o ponto e vírgula separa juízos, orações, e o ponto final indica o término do raciocínio, do período”.

Convenhamos, leitor, aprendeu mesmo? Para começar, seriam conceitos e ideias (que, por essa definição, só a vírgula separaria) coisas distintas de juízos (que só o ponto e vírgula separaria)? E, por acaso, vírgula separa frases? Ou só pode, entre outras coisas, separar orações dentro de uma frase? E frases não conteriam juízos supostamente
completos?

 

→ Mim X Eu (ou para mim X para eu): desfazendo um mito

 

Juízo é diferente de conceito? Por esse argumento cheio de indecisões terminológicas vê-se que entram em colisão, de um lado, frases e, de outro, orações, quando se sabe que certas orações, quando absolutas, são frases, ou, se quisermos, períodos simples, o que dá no mesmo.

O que temos aí é, portanto, um desencontro de conceitos. Na página 19 da mesma gramática lê-se que, “se a frase encerrar uma declaração, isto é, se afirmar ou negar alguma coisa, ela passará a chamar-se oração” (e agora? frase é um enunciado completo ou parte dele?).

Ademais, existiria alguma frase que não comporte uma declaração, um juízo, uma ideia? E quanto às frases nominais? Elas não contam? Ora, não seria também declaração uma frase nominal, que, justamente por ser nominal, não pode ser confundida com oração?

“Muito riso, pouco siso” é uma frase — frase nominal, bem entendido, claro —; eis que ela também comporta um juízo, uma apreciação, uma declaração, um esclarecimento a respeito de algo; e, no entanto, não é uma oração.

Imagine-se colocar, no meio dessa explicação toda, o ponto e vírgula, ainda mais procurando saber como medir a força do silêncio que ele supostamente provoca (“mais força que a vírgula e menos que o ponto final”). Ponha força, leitor!
*Roberto Sarmento Lima é professor doutor da Universidade Federal de Alagoas. Autor do livro O Narrador ou o Pai Fracassado: Revisão Crítica e Modernidade em Vidas Secas, publicado em 2015 pela OmniScriptum/Novas Edições Acadêmicas, em Saarbrücken, Alemanha.

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa – Ed. 68

como usar ponto e vírgula