Brincar ou aprender?

Essa dúvida atormenta pais e educadores de alunos da Educação Infantil. Afinal, o letramento precoce é prejudicial?

Por: Janaína Lima / Adaptação Web Rachel de Brito

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O letramento precoce gera controvérsias capazes de superar uma discussão religiosa. Enquanto algumas instituições de ensino apostam em atividades ligadas à leitura e à escrita, outras defendem a ideia de que é preciso preparar a criança antes de abordar esse tipo de assunto.

Uma controvérsia que acerta em cheio a sala de aula. O filósofo e educador austríaco RUDOLF STEINER, criador da pedagogia Waldorf, defende que os pequenos (com até sete anos de idade) tenham apenas uma responsabilidade na escola: brincar. Ao participar de jogos e atividades lúdicas, meninos e meninas desenvolvem diversas habilidades, entre físicas e motoras, além de um estímulo essencial para a vida, a confiança.

Segundo a teoria, nessa fase o aluno tende a gastar muita energia e se prepara fisicamente – isso é fundamental para o seu desenvolvimento neurológico e sensorial. Tais capacidades refletem em domínio corporal, linguagem oral e, principalmente, contribuem para a inteligência da criança. Ou seja, para Steiner, aprimorar essas características na educação infantil é mais importante do que aprender a ler o próprio nome. “Eliminar atividades que favorecem a criatividade e o pensamento pode ter consequências graves. Infelizmente, muitas dessas práticas estão sendo substituídas pela escolarização antecipada”, alerta ABRAHÃO DE FREITAS.

A ele fazem coro os estudos elaborados por outro profissional de renome na área, o psicólogo LEV VYGOTSKY. Ele dizia que a alfabetização é resultado de um processo longo e repleto de etapas, como gestos e expressões. Ao fazer um símbolo no ar, por exemplo, a criança já se manifesta a partir de uma linguagem mais próxima da escrita. Esse aprendizado gradual é imprescindível e deve acontecer nas classes de primeira infância, sem que atividades mecânicas de leitura e escrita atrapalhem ou forcem as etapas de desenvolvimento.

CARA E COROA

Foi o que aconteceu com Márcia Cristina Souza. Ela, mãe e educadora, comentou que seu filho, Rafael – um menino inteligente, comunicativo, proativo e articulado de cinco anos de idade –, que acabara de ingressar no 1º ano do ensino fundamental em uma conceituada escola particular, teve, já na primeira reunião de pais, uma avaliação negativa, salientando suas “dificuldades” de aprendizagens. E, mais recentemente, no encontro de fechamento do primeiro
bimestre, o menino fora classificado como “atrasado” em relação ao grupo e às expectativas da escola, porque ainda “troca ou esquece algumas letras” e “utiliza a letra bastão como código de representação da língua escrita”.

Essa situação traz a reflexão sobre um assunto ainda polêmico, tanto entre os profissionais da educação quanto entre as famílias de crianças frequentadoras de espaços (públicos e privados) de educação infantil e dos primeiros anos do ensino fundamental: o “letramento precoce”: Afinal de contas, é importante para a criança pequena se letrar? Como se dá o processo de letramento precoce? Como a criança e a infância são vistas dentro do processo de letramento precoce? E a mais importante: Aprender a ler e a escrever já na primeira infância garantirá adultos mais felizes, capazes e bem-sucedidos? Todas essas perguntas devem permear quaisquer reflexões sobre o assunto.

O certo é que a alfabetização precoce ganha cada vez mais adeptos na educação infantil. Essa tendência não agrada a grande parte dos especialistas da área, que defendem que criança tem de ser criança. Outros, porém, acreditam nessa antecipação. “As últimas pesquisas mostram que esses espaços (escolas infantis) são para aprender diferentes tipos de linguagem. A escrita não deve ser prioridade e a alfabetização não é conteúdo desses estabelecimentos”, diz NORMA FANTUCCI, coordenadora de uma escola de educação infantil e mestre em Linguagem e Literatura Infantil pela PUCRS.

Já Fátima Elleuzi, mestranda em Educação Infantil, rebate: “Inclusive, internacionalmente já ficou demonstrado que não é cedo alfabetizar aos seis anos ou até antes”. Para ela, a questão está mal colocada. “Aprender é sempre bom, porque vivemos em uma cultura letrada. Aprender a ler e a escrever é um desafio, uma conquista, algo bom. Faz parte do contexto.” Segundo especialistas, a corrida para saber ler e escrever foi impulsionada com a aprovação da lei que aumentou a duração do ensino fundamental de oito para nove anos, transformando o último ano da educação infantil no primeiro do ensino fundamental. Para que seus alunos não chegassem a essa etapa sem nunca ter pego no lápis e, claro, para não perder clientes, colégios particulares começaram a acelerar o início da alfabetização aos três anos.

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