Aposto: um termo cheio de truques

O aposto, tido em geral por um termo acessório da oração, sem maiores brilhos em uma frase, pode, no entanto, comportar o máximo de carga argumentativa em um texto

O aposto, tido em geral por um termo acessório da oração, sem maiores brilhos em uma frase, pode, no entanto, comportar o máximo de carga argumentativa em um texto. Quando se estudam termos da oração, o coitado do aposto é sempre visto de forma oblíqua e dissimulada. Nenhuma atenção especial lhe é conferida. Afinal, dizem os gramáticos mais tradicionais e mais empedernidos na hora de refletir sobre fatos de língua: trata-se de um termo acessório. Para que, então, gastar tanto tempo com ele?

 
Para começar, como diz Antonio Cicero na canção que leva esse título, já é tempo de rever essa história de classificar os termos da oração como essenciais, integrantes e acessórios. Na língua, tudo
é essencial. Duvidam disso? Retirem desta frase o adjunto adverbial (outro acessório!) e terão, aí, dois eventos diferentes: “Ela consentiu, sob muita pressão, na liberação dos documentos comprometedores”. Uma coisa é dizer que ela consentiu liberar documentos comprometedores; outra, bem diferente, é que só o fez sob forte pressão, caso contrário não liberaria. São duas situações opostas entre si, mutuamente excludentes. Em uma frase, sem o adjunto adverbial, age-se por livre e espontânea vontade, por decisão própria do sujeito; em outra, com a ponta da faca encostada na goela.

 
Assim, os termos ditos acessórios não são, de fato, irrelevantes e, uma vez apagados, alterariam muito significativamente o conteúdo da informação. No máximo se pode dizer que o termo é acessório sintaticamente, já que o aposto sempre entra na composição de outro termo maior, ao qual se agrega, podendo ou não entrar. No entanto, ainda assim, não se consegue entender língua fora do circuito comunicativo, onde aquilo que se diz e da forma como se diz serve para atender a necessidades reais de locução e interpretação. A ressalva que se possa fazer em favor desse ensino meramente formal, estéril e vazio, que, por não contemplar as instâncias discursivas da língua, já devia ter sido varrido das escolas, é que ele admite o acatamento cego, praticamente uma devoção, da lei do menor esforço. Que fica mais fácil para o professor acompanhar os manuais, sem refletir, seguindo a mesma ordem em que aparecem os capítulos, numa visão linear, fica mesmo mais fácil, sem dúvida alguma. Mas não é isso que queremos, não é?

 

O peso do aposto

Aproveito, aqui, um texto jornalístico curto, um texto de chamada, que, na primeira página da Folha de S.Paulo, em sua edição do dia 25 de janeiro de 2017, remete para uma reportagem sobre o perfil do juiz Ives Gandra Martins Filho, lembrado para ocupar a vaga deixada por Teori Zavascki, no Supremo Tribunal Federal. Enxuto e ligeiro, como devem ser as chamadas, o texto parecendo não trazer vestígios de subjetividade, não oculta, porém, certos vieses de sentido que dão à linguagem efetivamente utilizada algumas possibilidades de interpretação. E esses vieses, pasmem, estão centrados, justamente, quem diria, no aposto, esse acessório incorrigível! Vamos ao texto! “Um dos cotados pelo presidente Temer para a vaga de Teori Zavascki no STF, Ives Gandra Martins Filho escreveu, em livro de 2012, que “a mulher deve obedecer e ser submissa ao marido”. Celibatário e contrário à união entre gays, ele integra a Opus Dei, organização católica ultraconservadora.”

 

Nota-se, logo de cara, que o aposto inicia o primeiro período do texto. Um aposto que, antecedendo o termo ao qual se refere (o antropônimo Ives Gandra Martins Filho, termo principal, colocado
depois na sequência da oração), tem seu valor informativo devidamente realçado, pois encabeça não só o período como abre o texto. Ao começar a ler, o leitor até imagina que esse termo longo
(“Um dos cotados pelo presidente Temer para a vaga de Teori Zavascki no STF”) é o sujeito da oração, e o que vem depois dele, que é o próprio nome do juiz, é que seria o seu aposto, um daqueles apostos explicativos que vêm entre vírgulas. Acontece que a segunda vírgula não aparece, o que força o leitor a redirecionar a sua leitura. É que não importa tanto assim o nome do juiz, mas, acima de tudo, o que ele representa circunstancialmente. Sim, circunstancialmente, caro leitor! Esse aposto, longo e demorado, pode ser classificado como aposto circunstancial, e não vejo nome melhor para ele, porque tem mesmo um matiz adverbial. Uma vez reconhecida a correferência entre os termos (“um dos cotados” é o próprio “Ives Gandra Martins Filho”), o que importa é saber que o homem, por meio da aposição, pode ser alçado a ministro do STF, para o bem ou para o mal. Uma situação que ainda não existe, mas que pode chegar a ser; uma situação acidental, uma possibilidade; uma circunstância, enfim.
E quem diz isso é o aposto, não o sujeito da oração, chamado termo essencial. Quem pesa, essencialmente, no comentário do jornal é o aposto, pois! Em suma, meus amigos, aposto é isso. Reconheçamo-lo formalmente! É um termo substantivo (poderia ser um pronome substantivo ou um adjetivo substantivado) que necessita — agora vem o que mais interessa — ser encarado na sua capacidade de expandir os focos textuais. Começa-se, pois, a perguntar:

 

1) para que serve o aposto?;
2) em que situações de comunicação ele se faz necessário?
3) que modulações de ordem discursiva fazem o enunciador preferir este tipo a outro tipo de aposto?

 

 

Ora, respondendo em conjunto aos itens 1 e 2, afirmo que o aposto atende, antes de qualquer coisa, a um desejo universal que todo ser humano tem de ser claro, o que, praticamente, é uma meta de vida. Quem se comunica não quer, em geral, se trumbicar (mas, se tiver essa intenção, deverá saber que é conveniente evitar apostos no seu discurso). Ser claro não contradiz ser opinante.
O aposto do tipo circunstancial permite ao enunciador emitir suas opiniões, cujas modulações, no discurso, é que podem, agora, tornar um aposto menos ou mais significativo na comunicação inteira. Encaremos os dois apostos que essa chamada da Folha traz. Coincidentemente, ambos iniciam os períodos em que se encontram:

 
Período 1: “Um dos cotados pelo presidente Temer para a vaga de Teori Zavascki no STF”;
Período 2: “Celibatário e contrário à união entre gays”

 
Alguém pode daí cochichar com o outro e dizer que “celibatário” e “contrário” são dois adjetivos e que, portanto, não podem ser apostos, porque não são termos substantivos. Conversa! São palavras que acumulam, de acordo com a comunicação em que apareçam, a função de substantivo e de adjetivo, porque, ao mesmo tempo que caracterizam o indivíduo Ives Gandra Martins Filho, servem também para designá-lo, identificá-lo, já que eles nomeiam duas posições claramente assumidas pelo próprio juiz. Ademais, o dicionário registra, nos dois casos, seu papel de substantivo:
para “celibatário”, o Aurélio informa que é um substantivo quando quer dizer “indivíduo que não se casou”, enquanto, para “contrário”, primariamente um adjetivo, temos que, como substantivo,
é “tudo que é oposto”, segundo o mesmo dicionário consultado. Daí os dois substantivos poderem se unir coordenativamente com o auxílio de uma conjunção aditiva: “celibatário” e “contrário”.
Simples assim.

 
Quando vale mais a circunstância

 

Resolvida a questão classificatória, vamos aos apostos! Ambos, como já salientei, iniciam o período e são dotados de certa extensão sintagmática (catorze palavras no primeiro e sete no segundo),
parecendo até que constituem uma frase dentro de outra. Um conjunto de palavras traduzindo uma circunstância. Qual o interesse da reportagem que essa chamada anuncia? O esperado seria
dizer que Martins Filho foi cogitado para o cargo porque tem competência para assumi-lo. Isso não bastaria? Pela chamada, no entanto, esse atributo nem chega a emergir do vasto oceano dos
significados. Parece até que seria preferível que o juiz fosse menos competente porém mais moderno, como se tais qualidades conflitassem entre si. Sabemos muito bem que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Há juízes modernos e pouco competentes como também o contrário; e juízes conservadores e muito competentes, como também o contrário. Acontece que o Brasil já andou muito em suas leis (se não são bem implementadas e respeitadas, a história passa a ser outra, não a que estamos contando aqui). O que se evidencia no texto inteiro é o fato de ainda acharem, no século XXI, que gays não possam se unir civilmente ou que a mulher deva se submeter ao marido.

 

Os apostos, bem delineados, é que argumentam contra esse ponto de vista. Contra? Há, no texto, especialmente nos dois apostos focalizados, alguma palavra que diga isso? Não, não se diz nada desse jeito; o jornal não formula essa ideia, que é, ao que parece, apenas implícita. É certo que a posição dos dois apostos abrindo as frases, com esse comprimento de chamar atenção, sua clareza
cristalina, concorre para que sejam imediatamente notados. Julgados juntos, fazendo-se se um paralelo entre eles, eis que parecem complementar-se, somando-se um ao outro, e assim podem formar um texto à parte cujo resultado, sem muito esforço, seria o seguinte: “Um dos cotados pelo presidente Temer para a vaga de Teori Zavascki no STF afirma ser (ou, simplesmente, é) celibatário e contrário à união entre gays”. E isso bastaria para se transformar na chamada da reportagem. Para que mais? Não é só o que importa? O jornal pode ser que tenha pretendido dar a impressão de que não é apenas disso que quer falar; mas, na verdade, é só disso que fala. Os enchimentos do texto estão aí para provar: “(…) escreveu, em livro de 2012, que ‘a mulher deve obedecer e ser submissa ao marido’ (…) ele integra a Opus Dei, organização católica ultraconservadora” Como se vê, não se sai do assunto. Em apoio à ideia contida nos dois apostos, o juiz Ives escreveu em 2012 um livro no qual, literalmente, afirma que “a mulher deve obedecer e ser submissa ao marido”, certamente porque ele segue o receituário da ordem católica Opus Dei, da qual o mínimo que se diz é que é “ultraconservadora”.

 

Apesar de essas informações estarem contidas na expressão do predicado das orações — portanto, no centro sintático da composição das frases (“escreveu”, “deve obedecer”, “ser submissa”, “integra”) —, é de fato no aposto, como quem não quer nada, que se situa o mote deflagrador do assunto, seja porque os apostos assumem a dianteira de cada um dos dois períodos, seja porque, para isso, foram produzidos para ser do tipo circunstancial. A circunstância, às vezes, vale mais do que a regra. Não despertaria maiores atenções do jornal nem do público esse juiz, caso ele não tivesse ideias tão rígidas e, de quebra, não estivesse cotado para ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Federal. Numa hora como essa surgem dados da biografia do candidato: o conservadorismo moral é um deles. A argumentação, da forma como foi montada linguisticamente, não é agressiva, e até parece neutra, ou seja, quem assina o texto quer dar a impressão de que isso é apenas um traço curioso, mas nada mais do que isso. O texto aparenta, em sua translucidez, sem meios-tons, ser completamente ou unicamente, como se costuma dizer na imprensa, informativo, como se ser
informativo não implicasse fazer escolhas ideológicas, julgamentos, adesões ou censuras. Na realidade, não se diz claramente se o fato é bom ou ruim, ou mais ou menos, por isso ou por aquilo. O jornal pretende, na sua aparência, informar apenas, sem outras pretensões. Mas isso é só aparência

 

Um essencial para chamar de seu

 

O tom panfletário, realmente, inexiste aí; não se trata nem de elogio à atitude do nosso herói nem de achincalhe ou combate a essa ideia que ele defende com bravura e inconfundível convicção. No entanto, não nos enganemos, pressente-se, ao fim de cada frase, uma pergunta, que, latente e latejante, acrescento ao texto para visualizar melhor o problema. Vamos por partes: “Um dos cotados pelo presidente Temer para a vaga de Teori Zavascki no STF, Ives Gandra Martins Filho escreveu, em livro de 2012, que “a mulher deve obedecer e ser submissa ao marido” (É possível ou crível esse modo de pensar hoje em dia, ainda mais vindo de quem pode ocupar uma vaga no STF?).

 

O que está em negrito é apenas uma implicação, lógica e provável, que o discurso põe para reflexão. Aí fica ressaltado o papel argumentativo do aposto: afinal, que relação haveria entre dizer que Ives Martins Filho, em um livro recente, escreveu, com todas as letras, para quem quiser ver, que a mulher deve submeter-se ao homem e esse “inocente” aposto, onde se diz apenas que ele é candidato cotado para ocupar uma vaga no STF? Se as coisas ditas na frase não se relacionam de jeito nenhum, algum problema muito sério de coerência deve estar existindo nessa redação. O que, obviamente, não é o caso.

 

Agora, vamos ao segundo período, a que também acrescentei uma pergunta provocadora: “Celibatário e contrário à união entre gays, ele integra a Opus Dei, organização católica ultraconservadora” (Posição moral e religiosa tão conservadora pode ser combinada com julgamentos decisivos em instância jurídica superior, ainda mais em uma sociedade que, ao menos  teoricamente, separa a Igreja do Estado?).

 

Que relação há também entre pertencer à Opus Dei e ser contrário à união matrimonial homoafetiva e, ainda, ser membro do STF? Num crescendo de analogias e reforços semânticos cimentando o pensamento que se vai urdindo no texto, este vai pouco a pouco acentuando, palavra por palavra, que o preconceito parece inconcebível, pois, se não constituísse incômodo pensar assim, o jornal não noticiaria.

 

Com isso quero dizer que a capacidade argumentativa de um texto pode alcançar latitude maior e até mais dramática em qualquer porção do texto, até mesmo no aposto, tido em geral como um termo anêmico, dispensável, acessório. Faça-se o teste: apaguem-se os apostos do texto! O que acontecerá? Vejamos:
“Ives Gandra Martins Filho escreveu, em livro de 2012, que “a mulher deve obedecer e ser submissa ao marido”. Ele integra a Opus Dei, organização católica ultraconservadora.”
Sai de cena a sua ida possível para o STF, isso fica completamente fora de foco, não vem mais ao caso; por outra, ratifica-se apenas a posição ideológica de um intelectual que, por ter escrito um
livro defendendo a submissão da mulher ao marido e por pertencer à Opus Dei, se revela um homem ultraconservador. Só isso. Alguém se lembraria de fazer uma matéria sobre ele, caso não estivesse no centro das preocupações sua instalação numa cadeira da corte suprema do país?

 

Percebeu melhor agora, leitor, que nada há de inocente na linguagem, por mais objetiva e neutra que ela queira parecer, e, também, que não há termo da oração que se possa chamar de acessório? Aliás, todo acessório quer ter um momento essencial para chamar de seu. São os seus truques. É ou não é?

 

Revista Conhecimento Prático: Língua Portuguesa Ed. 64