A guerra das letras

O livro impresso ainda ganha de goleada essa partida contra os e-readers. Mas os novatos avançam silenciosamente e não pretendem sair de cena

Por Redação | Foto Pinterest | Adaptação web Tayla Carolina

Tocar no assunto remete a um Fla-Flu ou a Corinthians x Palmeiras em final de campeonato. De um lado, empedernidos, os defensores do livro impresso, trazendo-os junto ao peito, capas veneradas, metendo o nariz entre suas páginas, sentindo o cheirinho inebriante, degustando o prazer de abrir a primeira página, para em seguida fechá-lo novamente, mais alguns instantes admirando aquela obra de arte.

Do outro, os descolados e seus tablets e e-readers atraentes, com mil e uma funções, permitindo que o usuário, além de carregar consigo uma biblioteca que cabe na mochila ou no bolso, interaja em suas redes sociais enquanto faz um download do livro comprado há dois minutos em uma livraria digital.

Livros sempre foram um fetiche daqueles! Nos séculos XIX e XX, uma biblioteca recheada com mais de 200 volumes representava status. Ostentar era encomendar ao encadernador lombadas de livros, que eram enfileirados por tamanho, cor, não importava muito, desde que as prateleiras ficassem recheadas.

Hoje, um smartphone, que cabe na palma da mão, pode carregar o dobro da biblioteca acima em um clique. Vale lembrar que novidades sempre causaram e continuarão causando estranhezas. Quando a televisão chegou, não houve quem não preconizasse o enterro do rádio, marcando, inclusive, dia e hora do sepultamento. As rádios estão a pleno vapor e se acomodaram bem inclusive nas infovias da internet. A televisão, pérfida, também decretaria o fim do cinema, mas as salas de projeções continuam lotadas até hoje.

 

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Haverá aqueles que dirão que não é mais a mesma história, que os cinemas de rua morreram, que não há mais matinês como as da sua infância. Nostalgias à parte, a convivência entre as diversas linguagens é saudável e dá o tom aos novos tempos. E-books e livros em papel convivem harmoniosamente na bolsa de muita gente.

É o caso da produtora de eventos Caren Bianco, que se mudou para a Itália e não tinha como levar sua biblioteca a tiracolo. “Em um primeiro momento, senti um verdadeiro pavor. Leio muito e uso bastante a internet, porém não era consumidora de leitura digital de livros e revistas. Mas não tinha solução.

Se eu quisesse ler, principalmente em português, teria de optar pelo e-book. Confesso que ainda prefiro o livro em papel, localizo melhor trechos que quero reler nesse formato, mas também confesso que é muito prático carregar as minhas obras preferidas para todo canto e lugar”, pondera.

Supremacia do papel

Em agosto do ano passado, foi divulgado o primeiro Censo do Livro Digital. Trata-se de uma pesquisa inédita sobre a produção e comercialização do formato no mercado editorial brasileiro. Realizado pela Fipe, a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, em parceria com a Câmara Brasileira do Livro e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros, o censo mostrou que os e-books correspondem a 1,09% do faturamento total das editoras; 2,38% se excluirmos livros técnicos, didáticos e religiosos.

Das 794 editoras pesquisadas, só 294 produzem e comercializam conteúdos digitais – 63% das editoras brasileiras ainda estão fora desse mercado. O faturamento com os livros digitais também é altamente concentrado nas 30 maiores editoras do mercado: 85% do faturamento digital total no mercado brasileiro vem delas, que correspondem a 10% das produtoras de conteúdo digital para vender.

 

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O livro impresso registrou resultado positivo em 2017: o faturamento do setor subiu de R$1,6 bilhão para R$1,7 bilhão. Em volume de vendas, cresceu de 40,5 milhões para 42,3 milhões de exemplares vendidos. Esses números estão na edição mais recente do Painel das Vendas de Livros do Brasil.

O estudo é feito pela Nielsen e divulgado pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel). A pesquisa baseia-se no resultado da Nielsen BookScan Brasil, que verifica as vendas em livrarias, supermercados e bancas. Ironicamente, o campeão de vendas do livro impresso diz respeito ao meio digital: Felipe NetoA trajetória de um dos maiores Youtubers do Brasil, lançado pela Coquetel.

Curiosamente, os booktubers, que têm o meio digital como campo de atuação, também preferem os livros impressos. Mas é só o começo: A entrada do livro digital no Brasil aconteceu em 2009. A responsável foi a livraria digital Gato Sabido. As grandes corporações – como a Livraria Cultura, que vende livros digitais para o leitor que usa o Kobo, e a Amazon, que vende livros digitais para o Kindle – fizeram as vendas deslanchar. O primeiro e-reader da Cultura foi lançado em 2012, e livros digitais começaram a ser vendidos no Brasil pela Amazon no mesmo ano.

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa – Ed. 69