A arte da lógica

O estudo da argumentação tem sido reduzido, na sala de aula, ao reconhecimento de algumas técnicas de escrita, sem levar em conta que é um problema a ser tratado preferencialmente no campo discursivo, não apenas no da construção.

Por Roberto Sarmento Lima / Adaptação Web Rachel de Brito

Pensa-se habitualmente que uma aula de redação consiste em solicitar ao aluno que escreva depois de receber alguns estímulos: divulgação do tema, discussão a respeito dele, pistas para dar a partida da composição (pois, como dizia Karl Marx sobre a reflexão filosófica e científica, o difícil mesmo é começar). Entretanto, eis que alguma coisa acontece no coração do estudante, mas só quando ele cruza a necessidade de redigir e os meios intelectuais de que dispõe para tal.

Primeiro que o aluno, mormente no âmbito do ensino médio, é instado a escrever; nessa fase — fase da formação em que ele se prepara para as provas do vestibular —, muitas vezes ainda não se encontra, ou não se sente, devidamente pronto. Fica faltando algum pedaço. E, nessa torrente, é levado a aprender (senão memorizar) uma série de regrinhas (estas nem sempre muito úteis, ao menos pela maneira como vem se fazendo na sala de aula).

Por exemplo, alardeia-se a noção de organizar o texto tomando como base aquela tríade clássica de comandos: introdução, desenvolvimento e conclusão. Sim, e daí? Como fazer? Eis o nó da questão. Mais esta: o texto produzido para essa finalidade tem de seguir à risca o modelo de língua em seu registro culto. Mas é preciso saber como operar nesse sentido, fato que, de saída, já sugere que uma aula de redação é uma aula de português, não é verdade? É, portanto, uma grande tolice dividir essa tarefa em duas disciplinas independentes. Que haja mais professores para a mesma turma ensinando português até que não é ruim, mas não que um ensine português (e o que seria isso?), e o outro, redação (o que vem a ser isso mesmo?).

Outra regra é: o texto, segundo pede o vestibular, tem de ser de natureza dissertativa e, também, argumentativa. Ora, melhor seria dizer texto de natureza dissertativo-argumentativa, ou uma coisa ou outra, já que não há dissertação ou mesmo texto que, seja lá de que natureza for, não apresente argumentos. Diz a esse respeito, muitíssimo bem, José Luiz Fiorin, no seu livro Argumentação: “Todo discurso tem uma dimensão argumentativa. Alguns se apresentam como explicitamente argumentativos (por exemplo, o discurso político, o discurso publicitário), enquanto outros não se apresentam como tal (por exemplo, o discurso didático, o discurso romanesco, o discurso lírico)”.

O motivo de separar o que é inseparável provém da lógica de muitos acharem que só há meios de distinguir a argumentação em um texto se, e somente se, aparecerem aqueles sinais inequívocos que revelam a sua presença, como é o caso, sobretudo, dos CONECTORES TEXTUAIS, cuja marca é gritante: um “portanto” aqui, um “pois” ali, um “apesar disso” mais adiante, um “em consequência” acolá, ou algo mais explícito ainda, como a perífrase “como queria demonstrar”, entre outros. Ou, também, se o texto contiver, além dos conectores, um exemplo claro que comprove uma tese: pode-se argumentar que a violência no Brasil cresce dia a dia, eis a tese.

Logo adiante, no texto, vem um ou vêm dois ou mais de dois depoimentos de gente da vida real que sofreu agressões, por isso ou por aquilo; e, para confirmar a tese com mais crueza, desponta uma e outra foto em que se demonstre ser isso corrente e habitual no País. Pronto! Difícil é alguém, diante desse material todo, contra-argumentar.

A evidência é enorme. Conforme diz OTHON GARCIA, em Comunicação em Prosa Moderna, a “evidência das provas” é um dos principais recursos da argumentação. Ora, a argumentação nem sempre é muito clara assim; mas é suave, aparentemente inocente, sedutora… Podendo aparecer de outras maneiras, bem mais sutis, bem menos óbvias.

Tal é o propósito desta matéria: apresentar os disfarces da argumentação em um texto. Por serem disfarces, urge compreendê-los bem para não se enganar. Vamos a eles! Para começo de conversa, temos três pequenos textos tirados de uma coluna de revista de larga circulação nacional. Textos cujos títulos — que se deve considerar como parte integrante da massa verbal, não sendo, por isso, descartáveis para a análise — parecem até nada conter de argumentação. No entanto, não se intitula um texto à toa, mesmo quando o título parece desviar-se do foco de atenção do próprio texto — o que já é um disfarce.

Para ler esta matéria na íntegra, adquira já a edição 70 da revista Conhecimento Prático: Língua Portuguesa.

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